Isto foi a primeira coisa que escrevi depois de tudo o que passei e do bloqueio que tive na fic. Apesar disso demorei muito a escrever isto e senti necessidade de escrever porque uma parte disto é verídico. É grande.Espero que gostem.
Ainda me lembro daquele dia como se fosse hoje, céu chuvoso, que limpou rapidamente mal te vi, arrepiei-me, mas de frio não foi de certeza. Dois dias antes, tinha te visto pela primeira vez e apesar de estar frio, quando te olhei senti o meu corpo a aquecer, ignorei, pensei que fosse da ansiedade, de andar de um lado para o outro sem estar quieta um segundo. Vi-te andar, correr, ouvi a tua voz, vi o teu sorriso e ouvi a tua gargalhada e não evitei em me rir também.
Não sabia se havia de tirar fotografias ou apenas registar cada movimento, cada sorriso, cada contrair dos músculos com a mente. Decidi a primeira, tinha medo de esquecer do que vi, tinha medo que a minha mente deturpasse a minha visão de ti, que te tornasse mais do que és, e eu só queria ver-te como és, não mais nem menos.
Quando acabou, ganhei coragem para falar contigo, demoraste a sair e comecei a conversar sobre futebol com algumas pessoas, não reparei que estavas a passar perto de mim e a ouvir tudo, chamaram-me à atenção que estavas a passar, quando olhei estavas a olhar para mim e a sorrir, olhaste para dois dos teus colegas, disseste algo que não ouvi, voltaste a olhar para mim e riste. Sabia que o motivo era eu, apanhaste o que disse e como partilhamos o mesmo clube achaste piada e gozaste. Perdi a reacção ao ver o teu riso e sorriso, os teus olhos azuis-claros, penetrantes, hipnotizantes, a olhar para mim. Fui apanhada de surpresa e não me aproximei de ti, o meu corpo ficou colado ao chão, congelou, mas sentia-me quente no interior. Tirei uma fotografia mental aquele momento e registei-a, desejando que ela não se alterasse, apagasse ou perdesse no meio de tantas outras.
Afastaste te de mim, mas ainda olhaste mais uma vez para trás, como se estivesses a assegurar-te que eu estava mesmo ali. Quando fui para casa arrependi-me de não ter dito nada, de não ter tentado falar contigo, mas sabia que ia ter outra hipótese. Durante dois dias pensei em ti e relembrei me daquele ultimo instante, vivendo-o vezes sem conta na minha cabeça, lembrando o resto vendo as fotos.
Quando o dia chegou tentei não pensar nisso, fui para as aulas mas dei por mim a pensar no que dizer, no que fazer quando te voltasse a ver. E desta vez acontecesse o que fosse ia falar, não ia ficar calada.
Quando sai das aulas, senti o nervosismo a aparecer, apesar de ainda demorar até estar perto de ti. Quando cheguei só tive tempo de agarrar na minha maquina e pouco mais e dirigir-me ao local onde irias estar.
Quando voltei a ver-te o sol despontou e iluminou-te, vi o teu sorriso, os teus olhos brilharem com a luz do sol, capturei mentalmente o que vi, a maquina nunca seria capaz de apanhar aquele momento da mesma forma.
Depois tudo o que se passou foi uma espécie de nevoeiro, lembro-me de pedaços, lembro-me de tirar fotos, de tentar disfarçar quando te tirava fotos, porque o flash disparava. Lembro-me das pessoas a gritar, lembro-me de apenas olhar para ti, quando chegou a tua vez, o sol voltou a aparecer, iluminando-te, como se estivesse um holofote sobre ti. Analisei cada movimento teu, não queria saber de mais nada, só sei que parei de tirar fotos quando reparei a bateria a falhar e tinha de guardar a pouca que tinha para poder tirar a foto contigo, sem saber se iria estar contigo para isso acontecer, mas ia tentar, não ia desistir sem tentar.
Quando acabou, tudo voltou a ficar confuso, algumas pessoas chamavam o teu nome e eu não sabia se o havia de fazer, não sabia se ouvirias a minha voz, se irias olhar para mim. Quase que me magoei para me aproximar o mais perto que podia, para que pudesses ouvir a minha voz, chamei-te e olhaste na minha direcção, mas não sabia se era para mim, pedi algo teu, uma recordação, mas tu esboçaste um leve sorriso e continuaste a andar, desaparecendo dentro do edifício. Fiquei desiludida, provavelmente nem tinhas ouvido o que disse, aquele sorriso deve ter sido por outra coisa.
Esperei por ti, não ia embora sem conseguir o que queria. Naquele momento pensei no que dizer, como reagir à tua frente, não queria ser apanhada de surpresa novamente, comecei a questionar-me se te lembravas de mim, do outro dia, mas provavelmente não, depois de tanto pensar já sabia o que dizer ou como agir, só esperava que corresse tudo como tinha pensado, se isso não acontecesse ia perder a reacção, não iria saber como agir e iria passar vergonha.
Um amigo meu chamou-me a atenção, disse para me acalmar, podia falar com ele à vontade e pedir-lhe o que quisesse, que ele se pudesse ia aceder aos meus pedidos. Isso acalmou-me, relaxei, mas depressa o nervosismo voltou quando te vi, o meu amigo disse para te chamar, senti-me a tremer, respirei fundo e chamei o teu nome.
Foi a primeira vez que tinha proferido o teu nome, só o tinha feito na minha mente, e soou como tinha imaginado. Olhaste na minha direcção, vi o teu olhar em mim, mas perdi-o quando varias pessoas ao ouvirem-me chamar-te te envolveram, mas ainda olhaste uma vez mais na minha direcção antes de centrares a tua atenção naquelas pessoas.
Continuei a olhar para ti e mal as pessoas se afastaram vi o teu olhar na minha direcção, mas podias estar a olhar para qualquer pessoa perto de mim. Voltei a chamar pelo teu nome, o teu olhar voltou a fixar-se em mim e cada vez se aproximava mais de mim, cada passo que davas sentia as batidas do meu coração a aumentar, ouvia-o bater claramente, o nervosismo, a ansiedade, estava a levar-me à loucura.
Respirei fundo, olhei-te, prendi o meu olhar no teu, o meu hábito de olhar alguém nos olhos quando falava, fez-me olhar nos teus olhos e foi o maior erro que cometi. O teu olhar congelou-me, paralisou-me, hipnotizou-me de tal forma, esqueci tudo o que tinha planeado dizer, senti o tempo parar, e deixei de ouvir o meu coração bater por um instante. Azul claro, de uma intensidade indescritível, penetrava-me na alma, senti-me a arrepiar, e se tinhas o mesmo dom que eu, de ler os sentimentos das pessoas num olhar, sabias o que eu sentia. O meu corpo reagiu, não podia estar parada mais tempo, pedi-te algo teu e vi nos teus olhos que te lembravas de mim, vi um leve sorriso nos teus lábios, tinhas-me reconhecido. Negaste quando pedi uma parte de ti, a tua camisola, não a tinhas contigo, desculpaste-te com um sorriso e aquele sorriso era a melhor desculpa que podias dar. A tua voz fazia-me tremer, tão segura, tão doce, tão tua, nem conseguia descreve-la, quando te pedi uma fotografia acedeste e voltaste a esboçar um sorriso.
Expliquei ao meu amigo como usar a máquina, deixando-a nas mãos dele para tirar a foto, larguei a minha mala e preparei-me para colocar-me do teu lado. Uma pessoa interrompeu o momento, dizendo que tu não ias conhecer ninguém tão fanático pela equipa que partilhamos e pelo desporto que jogas como eu, senti-me a corar, de todas as pessoas, tu, era a única que eu não queria que soubesse desta minha obsessão, procurei um local, um buraco para me esconder daquele embaraço, quase que me escondi atrás de ti. Estava do teu lado e a fotografia foi tirada, a minha cara revelava tudo o que sentia, depois do flash ter disparado e me ofuscado por um instante, neguei o que tinha sido dito, voltando a ouvir mais pessoas que ali estavam afirmando tudo, olhei-te e estavas a sorrir, achaste piada aquela situação ou a algo do género, gostava de poder ler mentes para saber porque sorrias, mas sabia que o motivo era eu. Agarrei de novo nas minhas coisas e na minha máquina, vendo a foto e implicando com o meu amigo por ter ficado desfocada, mas o que interessava era aquele momento, tu voltaste a sorrir por ouvir aquilo tudo e o meu amigo e o colega dele quiseram uma foto contigo, desta vez fui eu que tirei e quando tirei a foto de ti com o meu amigo o teu olhar parecia mais centrado em mim do que na objectiva da máquina, mas devia ser imaginação minha.
Ias embora, sabia que se tinha de te dizer algo seria a última oportunidade que teria, talvez nunca mais iria ver-te, estar perto de ti assim. Chamei-te e desta vez não tinha nada pensado, apenas falei do coração. Vi os teus olhos em mim e apenas desejei-te uma coisa: boa sorte. Sorriste e acenaste com a cabeça agradecendo o apoio, memorizei aquele último olhar teu a mim e sabia que era um olhar de despedida, mas daqueles olhares que algumas pessoas dão a outras, quando não querem ir embora mas tem de ser.
Vi-te a afastares-te, pensei naquele olhar, sei que sentiste algo, sei que te “toquei” de uma certa forma e não ficaste indiferente, mas não agiste, talvez se as coisas fossem diferentes, tivesses dito algo, talvez se tivesse falado contigo na primeira vez, falasses mais comigo por não estar lá tanta gente, senti que devias ser tímido. Mas talvez fosse a única vez que ia estar assim perto de ti, porque não disseste nada?
A foto guardei-a com todo o coração, aquela era a prova que tudo tinha acontecido e não era um sonho. Mostrei-a a uma amiga, contei-lhe a historia toda e na altura não sabia como te chamar, chamava te lindo dos olhos azuis, ou algo assim, ela olhou para a foto e disse que tu eras o meu soulmate. Eu fiquei a pensar como, mal tinha falado contigo. Ela disse que o brilho nos nossos olhares era o mesmo, de estarmos juntos os nossos olhares reflectiam o mesmo, sentiam o mesmo, que tu eras metade de mim, da minha alma. Aquele nome ficou na minha cabeça.
Continuei a pensar em ti e no que tinha acontecido, pensei se ficaste a pensar em mim dias depois de nos termos conhecido, pensei se irias lembrar te de mim, se nos voltássemos a encontrar, pensei se iria voltar a estar perto de ti. Se eras o meu soulmate o destino iria arranjar forma de nos vermos de novo, palavras da minha amiga que desejei que fossem verdade, queria ver-te queria saber se te tinha “tocado”, queria saber porque é que não disseste nada, queria respostas para as minhas perguntas, mas acho que iriam ficar perguntas para sempre.
O tempo passou, minutos, dias, semanas e nada. O destino devia agir muito lentamente ou não queria nada comigo ou, na verdade, não eras o meu soulmate. O ano novo chegou, apesar de não gostar de passas pedi os 12 desejos, sendo um deles de encontrar o meu soulmate, fosses tu ou outra pessoa.
Mais umas semanas e nada, apenas via a nossa foto vezes sem conta e tantas outras fotos, lembrando-me daquele dia cada vez que as via. Dia que devia esquecer, porque não ia acontecer nada, devia parar de sonhar que voltava a encontrar-te, que te lembravas de mim e que querias conhecer me melhor, apesar de ter sonhos premonitórios, daqueles em que acontecem um tempo depois, sabia que este não devia ser um sonho deste tipo.
Estava para desistir, para seguir em frente e senti que o destino me deu um sinal, encontrei um amigo por acaso que me podia levar-me a ver-te e sem hesitar disse que sim, tremi ao sentir-me tão perto de ti, e perguntava me se sentias que eu estava ali. Sabia que provavelmente que não, mas tentei não pensar nisso, apenas desfrutei em ver-te e desta vez, com uma maquina melhor nas mãos tentei capturar cada pedaço de ti, sabendo que a maquina nunca iria capturar todo o teu ser tão bem como a minha visão, a minha mente. Os nervos dominavam-me, queria chamar por ti mas não tinha voz e mesmo que conseguisse, de certeza não irias ouvir, a minha voz ia ser engolida no meio daquele barulho, e tu parecias demasiado concentrado para ouvir fosse o que fosse.
Senti o barulho a diminuir, passaste perto de onde eu estava, gritei o teu nome e palavras de incentivo, estavas parado e por um instante olhaste para as pessoas, talvez tivesses ouvido o que eu disse ou olhaste só por olhar, mas fiquei com esperança que fosse a primeira hipótese. Quando tive de ir embora senti que tinha deixado uma parte de mim ali. Não te vi como queria, olhei para o céu escuro, negro e no meio da escuridão e da chuva vi uma estrela e desejei ter a oportunidade de falar contigo, de estar perto de ti, mas sabia que provavelmente era um desejo inútil, tu e eu somos de mundos diferentes e esses mundos não giram da mesma forma, não é suposto voltarem a encontrar-se.
Tentei esquecer tudo, mas ouvia falar de ti, via as tuas fotos e não conseguia esquecer, ficaste marcado na minha mente, no meu coração e magoava esquecer-te. O tempo passou, mas parte de mim continuava presa naquele dia. Se te voltasse a ver não te irias lembrar de mim, ou não ias reconhecer-me, o meu cabelo tinha crescido e a minha franja direita tinha desaparecido, crescido e usava a de lado.
O meu primo avisou-me que ia haver um almoço com vários apoiantes do nosso clube, por ser aniversario da casa onde víamos os jogos, convidou-me para ir e disse-me que pagava. Aceitei, apesar de a maior parte das pessoas que iria ao almoço eram pessoas bem mais velhas que eu, mas como conhecia praticamente toda a gente não fez diferença. Pouco depois, o dia chegou. Escolhi um vestido verde que tinha comprado no ano anterior para um casamento e calcei umas sandálias rasas, não sou pessoa de saltos e não era um almoço muito formal, mantive o cabelo simples, apenas esticado, pouca maquilhagem, não usava normalmente, mas queria parecer bem, com uma mala e a minha máquina na mão, pronta a disparar.
Estávamos nas entradas e era como nos casamentos, com uma mesa rodeada de comida, o meu primo avisou me que podia haver surpresas, mas não liguei, não devia ser nada de especial, comecei a tirar fotos a variadas coisas, parando para comer, com a maquina à volta do meu pescoço, olhei para as pessoas à minha volta e uns olhos chamaram-me a atenção, vi aquele azul-claro por um instante e perdi-o. Pensei estar a ver coisas, distrai-me com uma pessoa a elogiar o meu vestido e a minha apresentação, agradeci e tentei procurar de novo aquele olhar.
Fui distraída com o meu primo, que tinha algo a dizer-me, mas depressa o meu olhar voltou a apanhar aqueles olhos azuis-claros e desta vez não os ia perder, eras tu, depois de tanto tempo estava tão perto de ti, os meus olhos não te largavam, pensei estar a sonhar, mas era bem real, senti um arrepio, que me percorreu o corpo todo, era um pressentimento que algo ia acontecer, o que não sabia, nem se era bom ou mau, mas era contigo. Liguei a máquina e apanhei-te na minha objectiva, senti o flash a disparar e vi-te pelo viewfinder da maquina à procura da fonte da foto. O teu olhar parou na minha direcção, retirei a maquina da minha cara, olhei-te e senti que tudo se movia lentamente, que mais ninguém estava na sala a não ser nós. Desviaste o teu olhar do meu, um colega distraiu-te e imediatamente tudo voltou ao normal, fiquei um pouco desapontada, foi apenas um instante que fixaste o olhar em mim e não pareceu-me que me reconhecesses, mas tu viste-me, sabias que eu estava naquele almoço, e isso já era muito para mim.
O destino tinha agido e feito com que nos encontrássemos tal como tinha pedido, tinha oportunidade de poder falar contigo, mas como fazê-lo não sabia, apenas sabia que tinha de o fazer, o destino tinha me dado mais esta oportunidade e não podia desperdiçá-la.
“Catarina, ouviste o que eu disse?” – perguntou o meu primo.
“Sim.” – disse sem tirar os meus olhos de ti, sentado numa mesa perto da minha.
“O que foi que eu disse?”
“Não sei.”
“Tu estás distraída com algo. Ou com alguém, e acho que vem de uma mesa em especifico.”
“Não é nada. Deixa-me estar sossegada.”
Agarrei na máquina, pendurada no meu peito e não me importei se me apanhavas, já o tinhas feito uma vez e já me tinhas visto, queria capturar o teu sorriso, rias-te enquanto falavas com colegas, amigos na tua mesa. Mal te apanhei a sorrir de novo carreguei no botão da maquina e capturei o teu sorriso, a foto capturava-te de uma forma indescritível, a luz, fazendo os teus olhos sobressair mais, criando uma visão tua perfeita. Podia parecer uma perseguidora, uma stalker, mas não me importava, gostava de te tirar fotos. O almoço continuou, mas o meu olhar ia parar a ti, e dava por mim a pensar se sentias eu a observar-te, quando houve uma espécie de pausa no almoço fui à casa de banho, quando voltei não te vi na mesa e pensava que tinhas ido embora. Fiquei desapontada e resolvi vir para o exterior, tirar umas fotos do jardim para espairecer, para esquecer mais uma oportunidade desperdiçada, estava calor, o meu cabelo esvoaçava levemente com o vento, o sol brilhava, fazendo impressão nos meus olhos verdes acastanhados, continuei a tirar fotos e dei por mim a cantar baixinho, na solidão do jardim. Apontei a maquina para uma arvore e reparei que não estava sozinha, retirei o olho do viewfinder e larguei a maquina, ficando presa pela fita no meu pescoço, eras tu, de telemóvel na mão, olhando na minha direcção. Ainda me custava a acreditar que estavas mesmo perto de mim, devia ser apenas um sonho e esperar que acordasse a qualquer momento, fechei os olhos e esperei acordar. Quando os abri estavas mais perto de mim, frente a frente, tal como naquele dia, respirei fundo, olhei-te nos olhos, por um instante e voltei a sentir tudo de novo.
“Porque é que fechaste os olhos?”
“Pensava que era um sonho e que ia acordar a qualquer instante.”
“Mas não é. Reparei que tens estado a tirar fotografias e sei que tiraste muitas a mim. Que obsessão é essa comigo?”
“Não é obsessão. Apenas és fotogénico, não sei explicar bem, admiro-te, mas não sou obcecada. Há mal nisso?”
“Não. Já reparei que gostas muito de fotografia. E ou gostas muito de verde ou vieste a combinar só por acaso.”
“Gosto de verde, sempre gostei. Não te lembras…” – disse a ultima parte baixo.
“Lembro do que?” – ele tinha ouvido o que tinha dito.
“De quando te conheci. Já foi há muito, depois provavelmente nem te lembras, eu mudei, o meu cabelo já não está da mesma maneira e tenho maquilhagem hoje, mas foi aqui, nesta cidade. Desde esse dia fiquei com perguntas sem resposta na minha cabeça.”
“Lembro-me do jogo e depois dele, mas não estou a lembrar me de ti, mas és me familiar. Que perguntas?”
“Se não te lembras de mim, esquece. Fui estúpida em pensar que podias lembrar por tudo o que aconteceu.” – voltei-me de costas para ti, em direcção à porta.
“Espera. O que aconteceu? Nem sei o teu nome.”
“Catarina. Não te vou dizer. Espero que isto te faça lembrar. Tenho de voltar para dentro” – agarrei no meu telemóvel e mostrei a foto que tinha contigo daquele dia, depois virei costas e afastei-me.
Não eras o meu soulmate, o destino podia ter-me dado mais uma oportunidade contigo, mas em troca retirou-te do meu destino, a tua alma não era a metade da minha.
“Catarina, espera. Eu lembro-me. Lembro-me de falares de futebol, lembro de falares do nosso clube, lembro de dizerem que és fanática por futebol. Lembro-me de me teres desejado boa sorte. Não te reconhecia, estás diferente. Pergunta o que querias saber.”
“Passou-se algum tempo. È normal. Contei a uma amiga minha o que se passou naquele dia, ela disse que eu causei impressão em ti, que talvez não deves ter dito nada porque devias ser tímido ou assim. Fiquei com a impressão que tu querias ter falado mais comigo, aquele ultimo olhar era como se não quisesses ir embora.”
“Sim. Queria saber mais de ti, achei piada a tudo o que aconteceu e estava surpreendido de seres daquele tipo de raparigas que liga mais ao futebol que aos jogadores e de perceberes muito de futebol.” – sorri ao ouvir-te dizer aquilo.
“Não me perguntes como fiquei assim, nem eu sei. Mas isso não me impede de gostar de jogadores. E devíamos voltar para dentro.”
“Eu sei que uma coisa não impede a outra. Vamos para dentro, mas estava a gostar de falar contigo. Se quiseres continuamos isto daqui a nada, quando me vires a voltar a sair vem ter comigo.”
“Ok. Até já.”
Voltei para dentro e sentei-me. Pouco depois vi-te entrar, olhaste na minha direcção e sorriste por um instante antes de voltares a tua atenção para as pessoas da tua mesa. Não estava a ligar nenhuma ao que se ia passando, só esperava que saísses para voltar a falar contigo, mas parecia tudo passar tão lentamente, um minuto parecia uma hora, não estava a aguentar aquela espera, tentei distrair-me tirando fotos ao meu primo, e ao que se ia passando, mas o meu olhar ia sempre parar a ti e à tua mesa. Sentia a tua impaciência, os dedos a bater na mesa, a ver as horas vezes sem conta e o teu olhar a cruzar-se com o meu. Levantaste-te e olhaste para mim, esboçando um sorriso, sabia que era tempo de voltar a nos encontramos. Saíste da sala, queria ter saído logo atrás de ti, mas esperei, não queria dar nas vistas e não queria que ninguém suspeitasse, contei até 20, levantei-me e dirigi-me à saída. Vi-te, no jardim, a olhar para uma árvore, algo nela te intrigava, o sol iluminou-te o corpo, o olhar, como se fosses alvo de um holofote. Agarrei na máquina presa ao meu pescoço e tirei uma fotografia, nunca tinha visto nada tão simples, mas tão belo.
“Catarina, outra fotografia? É o que digo, tu tens uma obsessão por mim.” – ele virou-se na minha direcção, deve ter ouvido a maquina a disparar.
“Eu não. A minha máquina é que deve ter. Desculpa, mas não resisti, estava tudo alinhado para uma boa foto.” – tu aproximaste-te de mim e paraste à minha frente.
“Posso?” – apontaste para a minha máquina.
Acenei que sim. Tu colocaste as mãos na minha máquina e retiraste-a lentamente do meu pescoço. Olhaste para o ecrã mas não conseguia descortinar a tua reacção.
“Tens jeito. Já pensaste ir para fotografia?”
“Já, gostava de fazer um curso de fotografia, mas tenho de acabar o meu curso e vejo a fotografia como um hobby.”
Tu sorriste e continuaste com a minha máquina na mão, dirigiste-te para um banco que tinhas visto e eu segui-te. Sentamo-nos e olhei para a frente, não conseguia olhar-te nos olhos, se o fizesse me perderia e não conseguiria reagir, o teu olhar tinha um efeito em mim inexplicável, fazia-me arrepiar, mesmo sem estar frio.
“Catarina?”
“Diz.” – olhei para ti e vi o flash da maquina a disparar.
Imediatamente dei-te uma palmada no ombro, estava chateada de teres me tirado uma foto.
“Malvado. Deu-te gozo tirares a foto. Vou apagá-la.”
“Só fiz o que tens andado a fazer a mim e não apagas nada, ficaste bem.”
“Ok. Estamos quites. Devolves-me a maquina?”
“Só se não apagares a foto. Ficaste bem.” – eu acenei que sim e tu devolveste-me a maquina.
Começamos a falar de varias coisas, do que eu gostava de fazer, do que tu gostavas, mas acima de tudo falávamos mais de mim do que de ti, descobri que tu és religioso e admiti também o ser apesar de me ter afastado de certas coisas. Quando chegou à família deixei-te falar primeiro, contaste-me dos teus irmãos, depois perguntaste sobre a minha.
“O teu pai?” – perguntaste quando só me ouviste falar da minha mãe e irmã.
“Não quero falar disso. É complicado, ele e a minha mãe estão divorciados e nunca mais falei com ele. Ele fez coisas que não são de um pai, perdi a confiança nele, vivi 18 anos da minha vida a pensar que ele era uma pessoa e é outra.” – senti as lágrimas nos olhos e fiz um esforço para não chorar.
“Já percebi que é um assunto sensível para ti. Não falo mais nisso, desculpa.”
Senti algo na minha mão, olhei para ela e vi a tua em cima da minha, tocando-a, olhei-te nos olhos e senti-me a arrepiar, o meu coração que ouvia bater, falhou uma batida, senti-me estranha, mais calma, mas não sabia se queria sentir aquilo. Desviei o meu olhar do teu e retirei a minha mão de debaixo da tua.
“E a tua irmã? É mais velha que tu?” – desviaste o assunto para me sentir melhor.
“Sim, mas somos gémeas. E ela é do Benfica por isso é que ela não está aqui.”
“Irmã gémea? E do Benfica? Mesmo que sejam iguais ao menos tu escolheste melhor o clube.” – disseste a rir.
“Não somos iguais. Somos gémeas falsas. Eu mostro-te.” – agarrei na maquina e mostrei-te uma foto dela.
“Tens razão. São muito diferentes. Tu és mais bonita que ela, ela não é feia, mas tu és mais bonita para mim do que ela.” – e sorriste para mim.
“Estas a dizer isso só para me agradar, mas obrigado.”
“Não. É a verdade. Não sou pessoa de mentir.” – olhei-te nos olhos e vi que era verdade.
“Acredito em ti. Os teus olhos mostram que falas verdade.”
“Os meus olhos? Como vês isso?”
“Não sei explicar, mas consigo ver pelo olhar se estão a falar verdade ou não, as vezes consigo também perceber o que as pessoas sentem pelo olhar, mas é mais complicado.”
“Então consegues dizer o que sinto agora?”
“Não. Ainda não te conheço tão bem para isso e posso fazer um juízo errado do que possas estar a sentir.”
“Era para ir embora agora, mas também não esperava encontrar alguém com quem falar e passar tanto tempo, tirando os meus amigos.”
“Digo o mesmo. Também era para ir, como viste, não há muita gente com quem pudesse falar, a maior parte das pessoas são todas bem mais velhas que eu.”
Agarrei na máquina e não resisti em voltar a tirar-te uma fotografia. Tu fizeste cara de chateado e depois sorriste. Pediste-me a máquina, eu acedi, viraste a máquina para ti e fizeste sinal para me aproximar. Percebi o que querias e coloquei-me do teu lado, olhei para ti um segundo e tu para mim, sorri e tu também, olhamos para a máquina e o flash disparou.
O tempo continuou a passar, continuamos a falar, a tirar fotografias, o sol começou a descer e sabia que não devia faltar muito para que tivesses de ir.
“Que cores perfeitas…tenho de tirar uma foto. O tempo passa tão rápido.” – agarrei na maquina e tirei uma foto ao céu, pintado de tons alaranjados e cor de rosa.
“É lindo, e tão verdade. Daqui a nada vou ter de ir para não chegar muito tarde.”
“Eu sei. Gostava de poder parar o tempo.” – disse, olhando para aquele céu.
“Gostava que parasses o tempo quando estou contigo, Catarina.” – ouvi-te dizer.
Olhei para ti, para os teus olhos, nunca tinha ouvido algo tão lindo e queria saber se era verdade. Verdade que vi nos teus olhos azuis, com um brilho diferente, talvez dado pelo tom do céu que ainda nos iluminava, tornando-te ainda mais perfeito. Senti que talvez fosses mesmo o meu soulmate depois disto tudo que tinha acontecido, mas talvez nunca mais te voltaria a ver, o destino ia voltar a afastar-nos, se fosses o meu soulmate o destino tinha de dar mais um sinal, algo, fosse o que fosse, porque se isso não acontecesse teria de deixar-te ir, teria de te esquecer.
Não conseguia parar de olhar para ti, queria memorizar cada momento, cada pedaço de ti, não queria esquecer o teu olhar, tu continuavas com o teu olhar fixo no meu, tentei perceber o que podias sentir, se sentias o mesmo que eu, mas o teu olhar era-me desconhecido, difícil de ler.
Respirei fundo e os meus olhos fecharam-se por um instante. Senti algo nos meus lábios e sabia que eram os teus, tão suaves, tão doces nos meus, senti como se fosses a outra metade de mim, o meu soulmate, os teus lábios com os meus completavam um puzzle, sentia-me completa, sentia que os teus lábios pertenciam beijando os meus. Quando deixei de os sentir, foi como perder uma parte de mim, o meu corpo sentiu a perda, o meu coração falhou por um instante. Foi apenas um simples beijo, mas era muito mais que isso, era o meu sinal, a certeza que tu eras quem eu sempre procurei e desejei encontrar.
Abri os olhos e vi os teus, pensei que fosse um sonho e que ia acordar a qualquer instante.
“Catarina? O que se passa?”
“Diz-me que não é um sonho.”
“Não é. Se for preciso belisco-te.”
“Não. Acredito em ti. Porque o fizeste?”
“E porque não? Não sei explicar, apenas queria fazê-lo, era como se o tivesse que fazer antes de ir, se não o fizesse ia perguntar-me como seria, o que ia sentir.”
“E agora? O que foi isto? Isto muda algo?”
“Não sei. Não tenho uma resposta para te dar sobre isso.” – fiquei desapontada, mas percebi o que querias dizer.
O teu telemóvel tocou, era uma mensagem. Leste-a, e voltaste a guardar o telemóvel.
“Vou ter de ir, só agora dei pelas horas. Está a ficar muito tarde para mim. Gostei de te conhecer Catarina.” – abraçaste-me e sorriste. Voltaste para dentro, talvez para buscar algo ou despedires-te de mais alguém e saíste pouco depois.
“André, espera! Alguma vez vou voltar a ver-te?”
“Se quiseres sim. Eu gostava de voltar a ver-te. O teu telemóvel?”
Dei-te e escreveste algo. Depois vi o que era.
“Tambem já tenho o teu. Depois diz algo, quero continuar a falar contigo, conhecer-te e talvez daqui a um tempo possa ter uma resposta em vez de um não sei.” – sorriste e percebi o que era.
“Ok. Eu digo.”
“Adeus Catarina.” – sorriste e acenaste, voltei a ver aquele olhar, tal como naquele dia que algumas pessoas dão a outras, quando não querem ir embora mas tem de ser.
“Adeus André.” – sorri e acenei de volta.
Vi-te desaparecer da minha vista, mas uma parte de ti continuava perto de mim. Olhei para o céu, cada vez mais escuro e estrelado, apertei o telemóvel na minha mão, sorri e agradeci ao destino por aquela oportunidade, por aquele sinal, prometendo que não iria desperdiçar nada e que iria fazer de tudo para que resultasse, mas o meu coração dizia-me que sim, que ia resultar, porque tu és o meu soulmate, e sei que eu sou a tua, sem ti apenas sinto vazio, como se faltasse parte de mim, porque essa parte és tu que a tens, tal como eu tenho a tua e só juntos é que ficaremos completos.