Dei por mim a pensar em tudo o que se tinha passado nos últimos dias e ainda não percebia porque ele se importava, porque é que ele me ajudava, porque é que o chamei quando estava mal, porque me sentia tão dependente dele.
Mas a principal questão era como tinha chegado a este ponto, como me perdi ao ponto de querer acabar com tudo. Olhei para ele e lembrei-me das palavras do psiquiatra, talvez confie mesmo nele, mais do que eu alguma vez contei em alguém que mal conhecia, como ele me fazia sentir coisas que nunca tinha sentido, como parte de mim deixasse de se importar de eu me fazer de forte, de mostrar os meus verdadeiros sentimentos, de não os esconder de todos para fingir que está tudo bem quando não é bem assim.
“Está pensando em quê?”
“Em tudo…como tudo mudou.”
”Não esteja pensando demais, acho que está me cheirando a algo.”
“Engraçadinho.”
“Mas não pense nisso pense em quem era quando era feliz.”
“Não sei a última vez em que fui realmente feliz. Agora tenho medo.”
“Quando menos estiver esperando vai ser feliz. Medo de quê?”
“De ir para as aulas de novo e enfrentar os meus colegas, eles não sabem de nada mas tenho medo que descubram e me tratem diferentemente e não quero ser uma coitadinha. Da minha família e amigos, que eles também achem o mesmo, os meus amigos duvido que ajam assim quando o meu pai saiu de casa eles disseram se precisasse de falar ou apenas de sair para limpar a cabeça podia contar com eles para isso e para tudo.”
“Isso é que são amigos. Tem sorte em ter gente assim. E não tenha medo se tiver de acontecer algo, sabe que estou ao seu lado, não vou abandonar você. Sou seu amigo né? E os amigos se apoiam e ajudam.”
“Obrigada David, mas não quero distrair-te, não quero prejudicar-te no teu trabalho, não quero prejudicar a tua equipa apesar de me dar jeito.”
“Lagarta. E estou dizendo que está tudo legal, não quero saber, você é minha amiga só a quero ver bem Catarina.”
“Ok, não vale a pena insistir contigo és um lampião teimoso.” – ele fez uma cara como se estivesse chocado comigo.
“Prefiro que me chame de carneirinho do que isso.” – o David ficou muito serio.
“Ahahahah! Espero sentado, eu chamo o que quiser.” – sorri a gozar.
“Não vai ficar me chamando isso não.”
“Vou pois, lampião, não podes fazer nada.” – e deitei-lhe a língua de fora.
“Lagarta boba me vou vingar.”
Num instante fui atacada pelo David e não tinha hipótese de defesa, ele começou a fazer-me cócegas na barriga, o meu ponto fraco, e não conseguia parar de rir, ele prendeu-me as pernas sentando-se em cima delas, tentei dar pontapés e mexer o corpo para me soltar, mas não conseguia, mantive os pulsos o máximo possível quietos para não fazer movimentos bruscos para não ter dores. Sabia que ele não me ia soltar e eu não ia aguentar muito mais.
“Pára lampião.”
“Assim não paro lagarta.”
“Carneirinhooo pára, por favor.”
Ele parou e eu ainda estava a recuperar o fôlego de tudo e a acalmar-me, já não me ria assim há algum tempo. Mesmo assim ele não me soltava, olhei para o David e ele estava a sorrir.
“Que sorriso parvo é esse?”
“Gosto de a ouvir rir e de ver o seu sorriso. Os seus olhos brilham tanto, ficam lindos.” – ele tinha se aproximado de mim e estava a olhar-me nos olhos.
Estava literalmente deitada no sofá com o David sentado em cima das minhas pernas a olhar me nos olhos, quem entrasse em casa ia achar que era outra coisa.
“Não me digas que vais fazer como nos filmes e nas novelas e depois de um momento assim, beijas-me. É demasiado previsível.”
“Talvez. Mas tem de me dizer se tem namorado, vi anéis nos seus dois dedos, não sei o que pensar.”
“Não tenho. Os anéis foi a minha mãe que me deu um e o outro foi uma prenda da minha prima, era para substituir este mas comecei a usar na mão direita. E se vais fazer como nos filmes vou achar que és muito piroso.”
“Os portugueses não devem estar vendo o mesmo que eu. Com os olhos desses ia jurar que você tinha alguém Catarina.”
“E volta outra vez a piroseira com uma bela frase habitual. Vais fazer algo ou vais soltar-me?” – estava a ficar nervosa de ele não me ter soltado e pensava mesmo que ele me podia beijar, o problema é que não sabia o que sentia por ele, mas não estava apaixonada por ele para isso.
Ele aproximou-se ainda mais, estava a tentar ver o que podia sentir, a minha reacção, e eu só pensava que ia ser beijada por um lampião, o pior lampião que uma lagarta podia conhecer, um jogador do Benfica, respirei fundo e esperei pelo que ele ia fazer nunca tirando os meus olhos dos dele, como num jogo em quem desviasse primeiro o olhar perdia.