Primeiro dia de aulas depois de tudo ter acontecido. Nunca me senti tão nervosa, acho que mal saia do carro em vez de ir para a sala vou para casa. Mas sabia que não ia ter essa hipótese. A minha mãe ficou lá comigo e o David também, ele veio no carro dele ter à minha casa e fomos todos juntos para a minha escola. Fui falar com o professor, era o meu professor das aulas práticas, o professor bom, como as minhas amigas diziam, isto porque ele é novo e tem olhos azuis, até é engraçado mas é só, não babo por ele, até me assusto quando ele se põe atrás de mim a ler o que escrevo.
Fomos para uma sala dos professores naquele bloco, os meus colegas já estavam dentro do laboratório, fiz sinal ao David para vir, ele também estava o máximo disfarçado possível, ele tinha metido o carapuço da camisola na cabeça e estava com os óculos de sol postos, mas também agora não estava ninguém no exterior do pavilhão, estava tudo em aulas.
“O que se passa? O que me tem para contar?”
“Senhor professor, era sobre o motivo de a Catarina ter faltado as aulas nestes últimos dias, ela faltou a uma prática e temos justificação para isso.” – a minha mãe disse.
Eu estava perto do David, ele tirou o carapuço e os óculos da cara e o meu professor ficou admirado mas não disse nada. O David colocou um braço à volta dos meus ombros, como se me dissesse que estava ali, que estava a proteger-me.
“Contem-me o que se passou.”
“A Catarina esteve internada no hospital, por causa de algo que aconteceu. Queres mostrar?”
Abanei a cabeça que não, não queria ver aquelas coisas horríveis, estava a controlar para não chorar. O David olhou para mim e acenou com a cabeça, como se não tivesse hipótese. Ele ajudou-me a tirar o casaco e arregaçou-me as mangas. O meu professor estava em choque, eu senti as lágrimas na minha cara.
“Calma. Estou aqui Catarina.”
“David…” – não consegui dizer mais nada.
Senti-o a abraçar-me e continuei a ouvir aquelas palavras. Doía-me ver o que fiz, ver que estava marcada para sempre.
Quando acalmei e parei de chorar fui para a sala com o professor, mas antes abracei o David com força e ele deu-me um beijo na cara, e saiu. Fui para a sala e a aula decorreu mais ou menos normalmente, alguns dos meus colegas perguntaram porque estive tanto tempo sem vir as aulas e disse lhes que tinha estado com uma pneumonia e que tinha estado internada no hospital e tudo, eles acreditaram e o meu professor estava mais descansado, ele foi muito bom para mim, e quando se notou uma das minhas cicatrizes e eu não reparei, ele fez-me sinal e tapei-a a tempo.
A aula até passou rápido, tentei integrar-me ao máximo com o meu grupo e fazer tudo o mais normal possível, não fiz nada da experiencia directamente por ainda não estar bem dos pulsos mas ia dando indicações dos passos a seguir e registava os valores. No final o professor estava satisfeito por ter corrido bem e eu também apesar de me ter sentido à parte de toda a gente, como se não pertencesse bem ali, o meu telemóvel vibrou no meu bolso e mal o tirei vi o nome dele a piscar.
“Sim. O que se passa?”
“Correu bem a aula? Já está saindo?”
“Correu. E se não acreditas passo o telemóvel ao professor, ele está ao meu lado.”
“Acredito. Os seus colegas já saíram? Estou chegando, tem terapia ou já não se lembrava?”
“Estão a sair, espera que já te digo algo. E não quero…”
“Catarina Rodrigues.” – ele disse em tom autoritário
“David Marinho.” – respondi no mesmo tom.
“Me chamou de David Marinho.”
“É o teu nome certo? E podes vir que já não está ninguém perto.” – ouvi-o rir.
“Só me pegou de surpresa, as pessoas me chamam de David Luiz.”
Vi o carro dele a chegar pouco depois, o meu professor só se estava a rir da conversa entre ele e eu. Despedi-me do meu professor e agradeci a ajuda, de dentro do carro, o David de novo com um carapuço na cabeça mas sem os óculos postos e fez sinal ao meu professor como se perguntasse se tinha corrido tudo bem, se não tivesse ia haver alguma coisa e boa não era, mas o meu professor acenou e o David percebeu que tinha corrido.
“Pronta para a terapia?”
“Não, mas não tenho hipótese pois não?”
“Não.”
“Se o doutor tiver para me chatear ainda o mando ir a um sitio que cá sei, não tenho paciência para ele, ainda nem sei como não me passei na aula, tive sorte de ninguém desconfiar de nada e de ninguém fazer muitas perguntas.”
O David não respondeu, ele sabia que eu não estava com o melhor dos feitios hoje.