Como consequência disto tudo não consegui dormir quando voltei para o quarto, apenas voltei a chorar e pensei nele, pensei se ele fosse meu. Quando ouvi barulho sabia que o David estava acordado, mas não me apetecia enfrenta-lo, estava num estado provavelmente lastimoso e ele iria perguntar-me o que se passava e não iria conseguir responder. Podia ficar no quarto todo o dia só para me esconder dele, mas provavelmente não iria ser uma boa ideia.
“Catarina?” – ouvi a voz dele a chamar baixinho.
A porta abriu, tentei tapar me rapidamente e fingir que estava a dormir, mas ele ia reparar.
“Catarina, ta passando algo? Você não me ta parecendo bem. Foi pesadelo?” – ele aproximou-se e eu levantei-me da cama fugindo dele.
“Não é nada. Foi apenas uma noite má.
“Catarina, você teve chorando, não diga que não foi nada.”
“Deixa-me em paz David, apenas deixa-me.” – senti as lágrimas nos meus olhos.
Senti os braços dele à minha volta, a pele dele contra o meu corpo, senti-me a arder, queria larga-lo mas não conseguia, tinha os punhos fechados contra o peito dele, bati-lhes com eles com força suficiente para marcá-lo, soltando a frustração, a dor, tudo o que ele me fazia sentir.
Parei quando me senti cansada, senti a minha cara molhada, sem saber quando comecei a chorar, ele não fez nada para me parar, apenas deixou-me magoá-lo. Abri as minhas mãos, deixando uma repousar no peito dele, ouvindo o coração a bater, comecei a ceder aos meus sentimentos e a outra mão desceu lentamente, sentindo o corpo dele na ponta dos meus dedos, sentindo cada curva, parando na zona inferior do abdómen, perto do umbigo, todo o meu corpo tremeu, começando na ponta dos dedos, senti o calor a espalhar-se, fazendo-me arrepiar. Ele abraçou-me com mais força ao sentir-me tremer.
“Eu só quero você bem. Se não quiser não conta, mas quanto tiver mal me diga. Fica doendo muito quando a vejo assim, Catarina.”
Podia doer-lhe ver me assim, mas doía mais a mim, tendo-o tão perto de mim, mas nunca poderia ser meu, podia tocar-lhe, mas nunca como desejava.
Passaram-se uns dias, andava num estado miserável, tinha pesadelos e mal dormia, e era bem visível no meu aspecto. Na escola estava a prejudicar-me com isto tudo, o cansaço era demasiado, o Ruben andava preocupado comigo e falávamos todos os dias, ele nunca tocou no assunto da rapariga, apenas falávamos de coisas. O David já nem tanto, ele levou-me à terapia e ouvi-o falar ao telemóvel quando saímos do carro, não ouvi a conversa mas ele estava a sorrir que nem um parvinho e vi logo que só podia ser um motivo. Quando lhe perguntei ele disse-me que tinha combinado sair com alguém, não me disse mais nada, mas ele já devia desconfiar que eu sabia de algo, talvez pelo Ruben. Na terapia voltei a dar um passo atrás com esta situação, eu acho que o psiquiatra sabe dos meus sentimentos, mas não mencionou isso uma única vez por estar sempre com o David.
Chegou o fim de semana e tive de ficar com o David, não queria, mas o psiquiatra exigiu, tentei-me esquivar sem que o David percebesse, dizendo que ia ter uma frequência, mas tive de ir na mesma.
“Catarina?”
“O que foi?” – disse chateada, enquanto montava o portátil na sala.
“O que ta fazendo?”
“Vou estudar. Porquê?”
“Nada. Ta mesmo bem? É que algo ta estranho.”
“Não tá nada. Apenas tou chateada, mas não é nada de relevante para ti, coisas da escola e escusas de perguntar se estão a fazer-me algo que não estão, os professores estão a controlar tudo.”
“Tá. Tava pensando que podíamos ver um filme ou ficar jogando um pouco, algo para relaxar, mas como tem de estudar fica pra depois.
Nisto o telemóvel dele tocou e ele foi atender para o quarto. Quando voltou estava de novo com aquele sorriso estúpido.
“Vou sair hoje. Você fica bem aqui logo?”
“Não sei, talvez seja melhor ficar em algum lado, não me sinto bem a ficar sozinha hoje.”
“Eu deixo você com o Ruben, se não se importar, acho que fica bem.”
“Posso ficar lá a dormir? É que tenho medo de me deitar e ainda não estares em casa.”
“Ok. Depois pego você de manha.”
Pouco depois estávamos a sair, tinha um saco com algumas coisas para ficar na casa do Ruben, o David todo o caminho com um sorriso estúpido e eu estava a ficar irritada porque sabia o motivo daquele sorriso.
“Você fica bem?”
“Fico. Diverte-te na tua saída. Adeus.” – disse a palavra saída de uma forma irritante.
Sai do carro e pouco depois já estava à porta do Ruben e ele à minha espera na porta, larguei o saco no chão e mal o Ruben fechou a porta abracei-o e chorei.
“Catarina, ele…”
“Sim…”
E não foi preciso dizer mais nada. O Ruben sabia o que me tinha posto assim e custava-lhe ver-me sofrer pelo David, depois de tudo o que tinha passado ainda tinha de sofrer por amor. A dor consumia-me, estava a deixar de sentir, já mal sentia os braços do Ruben à minha volta, sentia um enorme aperto no coração, a tornar difícil a respiração. Precisava de sentir, precisava dele. Olhei nos olhos do Ruben e beijei-o, sentindo os lábios dele com os meus.
“Catarina, não. Isto não é solução.” – ele disse depois de quebrar o beijo e de me largar.
“Por favor Ruben, preciso de sentir, preciso de sentir algo mais que dor.” – respondi-lhe baixinho, sentindo mais lágrimas na minha cara.
Ele beijou-me, lentamente, suavemente, como se fosse partir a qualquer momento, sentia os lábios dele, a mão esquerda dele nas minhas costas, puxando-me para perto e a direita na minha cara, fazendo pequenas carícias, sentia tudo aquilo, sentia onde ele me tocava, no resto a dor continuava. Ele quebrou o beijo, agarrou-me ao colo e levou-me para o quarto dele, quando entramos ele levou-me para a cama e deitou-me lá, deitando-se ao meu lado, e colocando um braço à minha volta, olhando para mim.
Não aguentei o afastamento dele, tinha de voltar a sentir mais do que o simples braço dele, a dor estava a voltar a toldar-me a vista, olhei nos olhos e vi o David, com o olhar a brilhar, reagi por impulso, sentei-me em cima dele e beijei-o, ele não lutou contra isso e beijou-me de volta, continuando com os beijos de anteriormente. Coloquei as mãos na camisola dele, parei de o beijar, vi os olhos do Ruben, mas não queria saber, só queria sentir algo mais que dor, levantei a camisola dele e passei as mãos pelo corpo dele, senti as mãos dele nos meus pulsos, tentando-me parar, olhei para ele e senti mais lágrimas, ele lentamente largou-me os pulsos e continuei a passar as mãos pelo corpo dele, sentindo cada curva. Retirei-lhe a camisola e beijei-o desesperadamente, puxando o lábio dele e mordendo um pouco, arranhando o corpo dele. A dor era praticamente inexistente, apenas sentia calor, ardor, sentia-me bem.
Parei de o beijar, o calor era imenso, coloquei as mãos na minha camisola e retirei-a, olhei nos olhos do Ruben, visivelmente mais escuros, a respiração dele estava acelerada, um pouco ofegante, o corpo dele estava quente. O corpo dele ergueu-se da cama, ele passou a mão direita pela minha cara e a esquerda repousou nas minhas costas, os olhos dele nos meus, talvez à espera de algo para parar, a tentar ver se eu estava bem, mas eu não ia parar, não era suficiente, ainda sentia dor e tinha de parar e estava disposta a continuar, a ir até onde fosse preciso para que apenas sentisse, para que a dor desaparecesse, para esquecer o que sentia pelo David.