Abri os olhos, olhei para o lado e o David dormia profundamente, com a camisola vestida, era apenas um sonho, mas um sonho que me deixou ainda mais confusa. Eu apaixonada pelo David? Não pode ser verdade, isto é só o meu subconsciente a tentar arranjar um namorado para mim, só pode. E depois sinto-me um bocado sozinha, sei que tenho amigos e família, mas preciso de outro tipo de pessoa na minha vida e como o David é o mais próximo disso devo ter sonhado com ele assim. Mas ele é só o meu melhor amigo, nada mais.
Olhei para ele uma única vez e passou-me pela cabeça desejar que fosse verdade.
“Não!” – disse na minha cabeça a alto e bom som.
“Catarina? Você tá bem?” – o David acordou completamente confuso e assustado.
“Sim. Desculpa, pensava que apenas o tinha dito na minha cabeça.” – disse, sentando-me na cama.
“Tava pensando no quê? No que o doutor lhe disse?” – ele parecia mais desperto.
“Não interessa.”
“Catarina…não tou gostando desse tom. Você não ta bem.”
“Já te disse que estou.” – respondi irritada.
“Catarina…” – ele aproximou-se de mim e senti os braços dele à minha volta, abraçando-me.
“Larga-me!” – o abraço dele fazia me sentir coisas que não sei se queria sentir, assustava-me.
Cada vez me sentia pior, não sabia o que fazer ou o que dizer, não sabia bem o que era isto que sentia, apenas sabia que tinha de falar com alguém sobre isto. Saí do quarto disparada, entrei no quarto onde costumava ficar e fechei a porta.
“Catarina…” – ele disse batendo na porta.
“David, não. Preciso de ficar sozinha por um pouco.”
Agarrei no telemóvel e mandei uma sms ao Ruben, talvez ele me pudesse ajudar. Pouco depois obtive resposta, dentro de uma hora ele viria falar comigo. Resolvi despachar-me e vesti algo, não me preocupei muito com o que estava a vestir, era só por causa do Ruben.
Agarrei no meu mp3 e pus musica a tocar, tentei relaxar o máximo para poder explicar bem ao Ruben isto tudo, pouco tempo depois a porta tocou e sabia que era o Ruben. Saí do quarto disparada e abri a porta.
“Ruben! Ainda bem que pudeste vir.” – e dei-lhe um abraço.
“Tudo para a rapariga dos olhos lindos. O que queres falar? Eu até acho que sei o que é.”
“Vamos para o quarto.” – fomos em direcção do quarto de hospedes.
O David e o Ruben cumprimentaram-se e o Ruben seguiu-me, o David ficou curioso e com uma cara que algo se passava comigo e eu não queria contar-lhe e tinha chamado o Ruben por isso mesmo.
“Fala. Mas acho que isto está relacionado com a conversa do outro dia. E acho que tiveste aquela crise em parte por causa da conversa que tivemos e peço desculpa por isso.”
“Não podias saber. E não tiveste a culpa, o que tu me disseste apenas me fez pensar. Não sei o que sinto e tenho medo.”
“Que sentes? Estás a falar do que sentes pelo David certo?”
“Sim.”
“É evidente que gostas dele. Mais do que simples amigos.”
“Não é nada assim Ruben. Comecei a sentir-me estranha à volta dele desde ontem. Quando acordei vi-o a dormir tão calmamente e veio me à cabeça saber como seria o sabor dos lábios dele, como seria um beijo dele. Eu acho que isto está relacionado com eu me sentir um pouco isolada, um pouco só, e desde que me beijaste gostava que alguém gostasse de mim assim e que eu pudesse gostar também.”
“Não sei bem se é isso. Eu acho que tu estás a começar a aperceber-te do que sentes por ele. Tentaste negar tempo demais e agora já não aguentas mais.”
“Negar o quê? Tu estás parvo? Eu nunca neguei nada, eu não sinto nada por ele. E depois feita parva ainda nem sei como fui sonhar que lhe dizia que sentia algo por ele e que ele me dizia que sentia algo por mim e acabávamos aos beijos. Só tenho sonhos parvos. E não consigo ver o sorriso dele, sentir um abraço dele sem me sentir estranha.”
“Estás mesmo a ficar apanhada por ele. Eu sabia.” – ele afirmou, sorrindo e armado em convencido.
“Não posso Ruben, se isto é verdade não posso. Não quero perder o David, se isto é amor, se lhe digo vou perdê-lo, porque ele não sente o mesmo que eu. Mas eu nem sei bem o que isto é, não vou arriscar até saber bem. Tenho medo de fazer algo e depois não ser bem isto o que sinto. Mas a verdade é que tenho medo do que sinto, porque nunca senti-me assim.”
“Acredito, mas não podes ter medo do que sentes, tens de abrir o teu coração, tens de apenas sentir, nada de pensar, apenas sentir.”
“Sentir dói. É suposto doer? Estou farta de sentir dor. Só quero ser feliz, só quero deixar de sentir dor. Estou tão confusa.” – senti as lágrimas nos meus olhos, mas já não queria saber.
O Ruben abraçou-me e fez me melhorar, mas a dor ainda estava lá. Lembrei-me da ultima vez que tínhamos estado naquela situação e que lhe fiz a vontade e beijei-o, lembrei-me de não ter sentido nada mais do que aquele beijo, a dor tinha desaparecido momentaneamente.
“Ruben…beija-me.” – ele parou de me abraçar e olhou para mim.
“Não. Tu só estás confusa, só queres sentir algo diferente do que sentes e não te posso dar isso. Quando deixares de estar confusa vai doer menos, quando souberes o que sentes. Só espero que te apercebas disso rapidamente, senão pode ser tarde demais.”
A dor continuou, a minha cabeça era uma confusão completa, e no meio daquilo tudo não sabia bem o que sentia. Só espero descobri-lo rapidamente, espero o que o Ruben me disse ajude, e espero que não sinta nada mais do que uma amizade, porque não posso amá-lo, se isso acontecer, vou voltar a ser abandonada, porque toda a gente que amo, me magoa, me deixa de uma maneira ou de outra.