Quando sai da sessão já estava mais calma, a minha mãe e irmã não perguntaram nada, o psiquiatra voltou a chama-las para falar com elas mais um pouco. Tive uma declaração dele que ia ficar dispensada das aulas por uma semana, para ter tempo para me acalmar e ia ter mais duas sessões nessa semana, também estava dispensada pelo medico mas eram só uns dias, assim podia recuperar melhor, sentia-me melhor por pensar nisso, não tinha coragem para enfrentar ninguém e ficar afastada da maior parte das pessoas por uma semana talvez me ajudasse, ou não.
O David veio à minha casa, ainda era um pouco longe de Lisboa, mas nada demais, ele foi porque viu que eu ainda estava perturbada, fui no carro com ele, depois de ele verificar que era seguro ir com ele, ele não queria expor-me a jornalistas ou paparazzi ou sei lá quem o podia seguir, qualquer coisa desse tipo podia pôr-me mal. Passei todo o tempo a olhar para o interior do carro, nem liguei muito ao caminho, estava mesmo apaixonada pelo carro.
Mal dei conta quando cheguei a casa, vi o meu bairro, o campo de futsal, tudo na mesma. Entramos e subimos, juro que tive medo que alguém o apanhasse no meu prédio ou no meu bairro, mas não tinha visto ninguém. A minha irmã abriu a porta de casa e entramos, tudo estava na mesma, fomos para a sala e o David olhava para tudo à volta dele.
“Posso ver o resto?”
“Claro, car….” – a minha mãe respondeu.
“Mãe! Vamos David.” - ele seguiu-me, saímos da sala e fomos pelo corredor até ao meu quarto.
“O que a sua mãe me ia chamando?”
“Era uma alcunha, fui eu que inventei, e por causa disso em casa chamávamos-te mais pela alcunha do que pelo nome.”
“Me pode dizer?”
“Ias rir e gozar, nem sei como ela surgiu, foi do nada.” – entramos no meu quarto.
“Aquela é a sua cama, né?”
“Não era difícil. Como vês partilho o quarto com a minha irmã. Ultimamente é só mais nos fins-de-semana porque ela estuda longe de casa e vive numa residência.”
“É mesmo cama de lagarta, verde e com almofada dos lagartos.”
“Calma aí lampião.”
Vi-o olhar por cima da cama e tinha um quadro de uma foto de quando eu tinha 1 ano.
“Tão querida que você era. Era uma bebé muito bonitinha.”
“Agora não sou, sou apenas uma pessoa horrível.”
“Não é nada, continua a ser linda e querida.”
“Só dizes isso para me pôr melhor.”
“Não sou mentiroso não. É a verdade. E quero saber o que a sua mãe me ia chamando, não esqueci não.” – ele sentou-se na minha cama e eu sentei-me ao lado dele.
“Eu digo, mas se ris ou gozas eu não te perdoo.”
“Ok. Fala.” – olhei nos olhos dele.
“Carneirinho.” – e desviei o olhar de me sentir envergonhada.
“Que querido e engraçado. Por causa do meu cabelo, né? Já me chamaram de muita coisa mas carneirinho é a primeira.” – e vi um grande sorriso.
“É. Estava a ver um dia um jogo e disse: Que cabelo com tantos caracóis, deve ser tão fofinho como um carneirinho. E depois pegou a palavra. Até disse se tivesse perto tentava ver se era mesmo fofinho.”
“Quer saber se é mesmo? Pode tocar, não morde.” – olhei para ele.
“Que piada que tens. A sério?” – ele voltou a sorrir e acenou que sim.
Olhei nos olhos dele e levantei o meu braço, mexi um pouco o pulso e senti logo dor. O olhar dele desviou-se do meu por segundos por causa da minha reacção à dor, mas respirei fundo e continuei, senti os meus dedos a tocar nos caracóis dele, a entrelaçarem-se neles, e não havia palavras para descrever como o cabelo dele era, continuei a olhar nos olhos dele para perceber quando seria demais, quando devia parar, mas o olhar dele continuava na mesma. Parte de mim sentia-se vulnerável, outra sentia-se como lhe confiasse a minha vida e isso assustava-me.
“Está tudo bem? Estão a dem…” – a minha irmã interrompeu-nos, tirei a minha mão dos caracóis dele rapidamente e senti o pulso a arder.
“Sim, eu só estava mostrando uma coisa à sua irmã.” – ele olhou para mim para verificar se estava bem, ainda sentia o pulso a arder um pouco, mas respirar calmamente estava a ajudar.
“Desculpem, não queria ter interrompido o momento. A mãe queria saber se queres comer alguma coisa, ainda mal comeste.”