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quarta-feira, 2 de março de 2011

Rescue Me - Capitulo 50 (parte 2)


Desculpem pela demora. Como prometido a parte 2 do capitulo 50. Obrigada por todos os comentários e espero que gostem.

Quando parei de correr nem sabia como respirava, doía tanto, doía mais do que qualquer dor possível, as forças faltavam-me e sentei-me no relvado. Desejei desaparecer, ir para longe de tudo e todos, para esquecer, para fazer me fazer crer que isto tudo não era mais que um pesadelo, mas não o podia fazer. Senti-me vazia, como se já não valesse a pena viver, mas a dor era diferente da dor que habitualmente sentia, a vontade de fazer uma loucura não existia, apenas existia uma grande vontade de chorar.

Tinha tudo acabado, por culpa minha, agora nada ia voltar a ser igual. Quando o conheci, a minha vida mudou em todos os aspectos, sobrevivi e ganhei um anjo da guarda, que me protegeu de tudo e de todos o melhor que podia, até protegeu de mim mesma. Ele fez-me sentir feliz, fez-me acreditar que eu podia ser feliz, fez-me voltar a confiar e a amar.

Mas agora, não sei quando vou voltar a confiar em alguém, quando vou voltar a amar alguém, porque a única que pessoa que confio, que amo rejeitou-me e provavelmente vai-se afastar de mim. Porque é que todas as pessoas que amo me abandonam?

Continuei a chorar, o meu telemóvel vibrava incessantemente no bolso do meu vestido. Sabia que era ele, não ia atender, não conseguia, só ia doer mais e precisava de estar afastada dele. O telemóvel parou de tocar durante um bom bocado, ele deve ter-se cansado de ligar. Olhei para as estrelas, e não pude deixar de perguntar que mal tinha eu feito para merecer isto? Porquê eu? Voltei a sentir o telemóvel a vibrar, vi o número e desta vez não era ele, mas o Ruben. Atendi, mas não respondi, não fosse ele do número do Ruben.

“Catarina? Estás a ouvir-me?” – a voz era do Ruben.

“Sim…”

“O que se passa? O David ligou-me desesperado a dizer que não consegue falar contigo e agora ouço-te a chorar.“

“Eu…” – nem conseguia dizer a verdade.

“Disseste-lhe o que sentias não foi? E ele não correspondeu, pois não?”

“Não…” – disse quase num sussurro.

“Oh…estamos preocupados contigo. Não faças nada Catarina, prometes? Podes dizer-me onde estás? Queremos ir ter contigo.”

“Prometo. Quem vem? Não quero ele…” – chorei mais, nem o nome dele conseguia dizer.

“Eu e a Andreia. Não sei do David e não quero ele perto de ti agora. Diz-me como chegar a ti.”

Expliquei-lhe o melhor que podia onde estava, apercebi-me que estava muito longe da tenda e que eles iriam demorar a chegar até mim. Olhei para as estrelas e cantei.

But somewhere we went wrong
We were once so strong
Our love is like a song
You can't forget it

Perguntei-me como iria sobreviver, como iria viver sem ele do meu lado, acho que não vou conseguir aguentar. Ele tornou-se numa espécie de pilar principal da minha vida, sem ele tudo se desmorona. Tudo cai e fica reduzido a nada, e não sei se vou conseguir voltar a reconstruir tudo de novo, se conseguir vai demorar muito tempo, e não sei se aguento voltar a passar tanto tempo a sofrer por algo que talvez se vá desmoronar outra vez. Continuei a cantar, a mesma música, musica que ajudava-me a lidar com a dor, a apagar parte dela, mas desta vez não apagava, apenas acentuava o que sentia.

Somewhere we went wrong
Our love is like a song
But you won't sing along
You've forgotten
About us

O meu corpo estava completamente dormente da dor e só sentia as lágrimas na minha cara porque eram molhadas e frias. E eu iria voltar a ser uma pessoa fria, vazia, um corpo sem alma, um olhar sem brilho, porque estou farta de lutar por algo que nunca vou ser, por algo que nunca vou voltar a sentir, mais vale parar de lutar e de sentir, nunca iria ser alguém, sou nada, não valho nada, o meu pai sempre teve razão.

Ouvi barulho, sabia que já não estava sozinha, devia ser o Ruben e a Andreia. Quando olhei para o lado era a única pessoa que não queria ver, nem estar perto. Levantei-me, pensei em fugir, mas sabia se desta vez o fizesse ele me apanhava logo.

“Catarina…”

“Não tenho nada mais a dizer-te…” - disse olhando o chão e passando por ele, tentando-me afastar.

“Espere. Me deixe explicar.” – a mão dele agarrou no meu pulso e puxou-me para ele.

“Larga-me. Larga-me!” – gritei, tentei soltar-me dele, mas sabia que não ia conseguir.

“Depois de eu explicar eu largo. Mas tem de me ficar ouvindo.”

“Ok.” – respondi, olhando para o chão.

“Sou eu quem tem o seu coração, Catarina?”

“Sim…” - disse num sussurro, sentindo as lágrimas nos meus olhos.

“Porque não falou? Porque ficou sofrendo?”

“Porque não queria estragar tudo, mas acabei por o fazer na mesma. Fiz com que o teu namoro acabasse, e destrui tudo o que tínhamos, porque sei que agora vais-te afastar de mim, porque não me vês mais do que uma amiga e não consegues estar comigo sabendo o que sinto.”

“Você não tem culpa de nada. Fui eu que terminei, quando você tava no hospital ela disse que tinha de escolher entre ela e você Catarina, ela falou que eu tava demasiado preocupado quando você tava mal, mais do que devia e ela exigiu eu escolher o que era mais importante para mim e sabe o que fiquei escolhendo.” – senti a mão dele na minha cara, a tentar limpar as lágrimas.

“Não me toques!” – a mão dele deixou a minha cara.

“Na altura não fiquei entendendo algo que ela falou, ela falou que o escolhi não tava longe do que sentia, mas agora sei. Catarina eu te…”

“Não digas, tu não o sentes David, só dizes isso para evitar que eu faça algo de mal.”

“Não. É a verdade. Te amo Catarina e não vou parar enquanto você não acreditar em mim.”

“Não acredito, como sei que é isso que sentes? Como sei que não me estas a mentir? Não consigo acreditar, perdi a confiança em ti.”

“Me olhe nos olhos, me diga o que ta vendo, me diga se tou mentindo.” – senti a mão dele que agarrava o meu pulso a puxar-me para mais perto dele.

Pela primeira vez desde o inicio da conversa, olhei-o nos olhos, mas não conseguia ver bem o que ele sentia. Sempre fui capaz de ler sentimentos das pessoas que conheço com o olhar, saber se estão a dizer a verdade, mas ele era um turbilhão de coisas, uma indefinição, se era verdade ou não, ou então era eu, blindada, por tanta dor que não via realmente o que é verdade.

“Não consigo, não sei o que vejo…”

“Te amo Catarina, acredite por favor...” – continuei a olhar, mas nada.

“Não consigo…” – sentia as lágrimas a cair, a dor, coisas do passado na minha cabeça.

“O que diz o seu coração?”

“Não sei…está dividido.”

“Mas ele sabe o que você sente por mim.”

“Sim…”

Senti a mão que agarrava o meu pulso direito a segurar-me na mão e a leva-la na direcção do peito dele. Ele colocou-a no peito, na zona do coração e segurou-a lá.

“O seu coração bate por mim. Sinta se o meu tá batendo da mesma forma, se ta batendo por você.”

Sentia o meu corpo todo a tremer, aquele simples toque no peito dele fez bater o meu coração com uma intensidade inexplicável, naquele momento o meu coração reagia ao simples toque com o David, o olhar dele esperava por algo, por algum sinal, algo que dissesse o que eu acreditava. Ouvi o coração dele, a pulsar na minha mão, batia intensamente, respirei fundo, deixei-me levar, apenas a sentir. Devia ouvir dois corações bater, devia sentir dois batimentos, mas não. Ouvia apenas um, e não sabia de quem era, pensei que fosse o meu coração que deixasse de bater, mas ainda respirava, naquele momento soube e não foram precisas palavras para o descobrir.

“David…” – o nome dele saiu-me dos lábios, num sussurro, como se o meu coração chamasse por ele.

Senti a outra mão do David na minha cara, limpando-me suavemente com o polegar, uma lágrima, senti a respiração dele próxima da minha, os olhos dele mais perto dos meus. Os lábios dele tocaram nos meus, os meus olhos fecharam-se e deixei-me levar pelo que sentia, deixei de ter medo, confiei nele, os lábios do David moviam-se lentamente com os meus, todos os sentimentos dele transpareciam naquele beijo, os nossos lábios era como se soubessem que pertenciam um ao outro, encaixando numa forma única. A mão direita dele continuava na minha cara, fazendo pequenas carícias enquanto a outra continuava a segurar a minha no peito dele, sentindo o coração dele batendo em uníssono com o meu.

Quando o David quebrou o beijo, parecia que o beijo tinha durado um tempo indefinido, como se o tempo tivesse parado naquele instante. Abri os olhos e vi os olhos dele nos meus, sabia que ele devia estar a sorrir, pois vi o olhar dele a brilhar daquela forma quando ele sorria.

“Te amo Catarina.” – e uma mão dele passou pelos meus cabelos, retirando-os da minha cara.

“Eu sei. Amo-te David.”

Sorri, passei uma mão pelos caracóis dele e ele envolveu-me com os braços, puxando-me para o peito dele, eu coloquei os meus braços de volta dele, olhei nos olhos dele e ele beijou-me novamente, apenas um simples beijo curto, mas que selava que pertencíamos um ao outro, que selava o nosso amor.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Rescue Me - Capitulo 50 (parte 1)


O capitulo que tanto esperavam. (ou não) Um capitulo cheio de emoções e dividido em duas partes. Esta é a primeira, espero que gostem e ouçam com a música que esta faz sentido com o que acontece no capiutlo. Preparem-se que é um capitulo grande. E comentem. Obrigada.

Tenda:




Inicio do mês de Junho


Hoje devia ser um grande dia para mim e para a minha irmã, fazemos 21 anos, mas só penso nele. As coisas já estão melhores, mas continuam estranhas, sinto-me culpada, sinto que ele não anda bem por minha culpa, por causa das minhas crises. Sinto-me triste porque duvido que o David venha à minha festa, ele está de ferias agora, eu convidei-o mas disse-lhe que não ficava chateada se ele fosse de ferias e não pudesse vir. O período de ferias dele é curto e disse-lhe que ele tinha de aproveitar.

Já não falo com ele há uns tempos, e as crises tem sido piores, muito por minha culpa, mas não quero pensar nisso agora. Estou no local da minha festa, é um sitio onde está a haver uma feira, tem um relvado enorme, tem concertos e tudo, tem de se pagar entrada para ir e está sempre cheio de gente, mas a minha festa vai ser num local mais recatado, numa tenda montada um pouco distante do alvoroço todo, mas a festa foi feita ali com a intenção de podermos aproveitar a feira.

Não convidei demasiada gente, apenas os meus amigos mais próximos e a minha família, desde que tudo saiu nas revistas tenho medo que mais seja exposto e não quero sofrer mais com o que as pessoas dizem e pensam de mim. Tenho um vestido que gosto muito, coloquei-lhe as alças para não o puxar para cima, comprei já com a intenção de o vestir hoje, coloquei as pulseiras como habitualmente para esconder as cicatrizes. Tenho um pouco de maquilhagem, foi uma amiga minha que me maquilhou e achou que tinha de me produzir para a minha festa, estou com umas sandálias rasas, estive de saltos mas não ia aguentar dançar e andar de um lado para o outro de saltos, só de pensar que há uns meses nem um vestido vestia e saltos nem pensar, há coisas que mudam, eu mudei e a minha vida também.

Os meus amigos foram chegando aos poucos, dando-me os parabéns e a minha irmã, muitos impressionados com o meu visual. Sorri-lhes e recebi os presentes de alguns deles, mesmo assim não me sentia feliz, o único presente que queria era ele na minha festa.

“Não paras de pensar nele pois não?”

“Não Andreia. Gostava que ele estivesse aqui, mas não lhe podia exigir isso, ele tem de aproveitar as férias que tem.”

“Catarina, podes vir comigo lá fora?” – disse a minha irmã.

“Ok. Vens Andreia?” – ela acenou e saímos as 3 da tenda.

Olhei em redor e percebi porque e que a minha irmã me quis fora da tenda. Sorri, o David e o Ruben vinham na direcção da tenda e estavam a olhar para mim. Não resisti, corri até eles e abracei o David. Ele levantou-me do chão.

“David! Pensava que não vinhas mesmo.” – ele pôs-me no chão, aproveitei e passei uma mão pelos caracóis dele, para os despentear, mas estes voltaram à forma inicial.

“Não ia ficar faltando a uma grande festa, em especial da sua, Catarina. Parabéns.” – ele sorriu e cumprimentei-o com um beijo na cara.

“E eu? Não mereço um abraço e um beijo da aniversariante?”

“Claro melga ou é Ruben? Já não sei o teu nome.” – ele olhou para mim com cara de poucos amigos, mas depois sorriu, abraçou-me e dei-lhe um beijo na cara.

O Ruben começou a andar em direcção da Andreia e da minha irmã para a cumprimentar também e eu e o David seguimo-lo um pouco mais atrás.

“Você tá linda Catarina. Você é linda, mas hoje ainda tá mais.”

“Não sejas tonto.” – sorri e baixei a cabeça para ele não ver que eu estava a corar.

Chegamos ao pé da minha irmã, da Andreia e do Ruben e não conseguia fazer mais nada do que sorrir.

“Ruben é a minha amiga, a Andreia. Vocês vão dar-se bem, são os dois tontos, sempre a inventar esquemas, muito coscuvilheiros e a armarem-se em casamenteiros. Mas Ruben, cuidado! Ela é uma mulher do Norte, e do Futebol Clube do Porto.”

“Eu aguento com pessoas do Norte e do Porto. Aguento com este aqui, aguento com qualquer um.” – ele disse a apontar para o David.

O David olhou para o Ruben com cara de poucos amigos, bateu-lhe com a mão na cabeça e sorriu.

“David, a minha prenda? Não me digas que não trouxeste nada!”

“Eu pensava que a sua prenda era eu.”

“David! Tu és uma boa prenda, mas tu sabes que gostava de ter uma prenda tua.”

“O Ruben tem no saco.”

O Ruben deu-me o saco e eu estava com um grande sorriso sem saber o que podia ser. Abri o saco e vi duas caixas embrulhadas em papel verde com um laço branco. Abri primeiro a caixa quadrangular, era maior e tudo. Lá dentro estava uma maquina do tipo que eu gostava de ter, a bolsa, um cartão de memoria e uma lente.

“Obrigada! Muito obrigada! Não devias ter gasto tanto dinheiro nisto, David! Mas como sabias?”

“Fui eu, tu contaste-me que gostavas de ter uma máquina assim. E o David disse-me que andavas sempre a tirar fotografias a tudo com a máquina que tinhas. Abre a outra, é minha.” – respondeu o Ruben.

Abri a outra e era uma lente, mas de longo alcance, também não deve ter sido nada barata, só pensei que eles eram doidos por terem gasto tanto dinheiro comigo.

“Vocês são doidos! Isto foi muito caro! Não era preciso uma prenda assim. Mas muito obrigado, estou muito feliz pelo que me deram e por estarem aqui, não podia pedir melhor para o meu aniversário.” – dei um beijo na cara de cada um, para agradecer aquelas prendas.

O Ruben chegou ao pé da minha irmã e também lhe deu algo que estava num segundo saco, não vi o que era, mas ela estava muito contente.

Entramos na tenda, tocava musica do computador que levamos, os meus amigos conversavam e iam comendo, alguns estavam a dançar. A minha irmã entrou com a Andreia e o Ruben e depois entrei eu com a caixa da máquina e o David com a lente que o Ruben me deu. Vi a minha mãe a sorrir, ela devia saber que o David vinha, olhei para alguns amigos meus e família e alguns estavam surpreendidos de ver o Ruben e o David na minha festa de anos, apesar de já saberem que eu sou amiga deles, mas não agiram como fãs e foram logo pedir autógrafos, continuaram com o que faziam apesar de eu saber que alguns deles iam me pedir para os conhecer e tirar fotos. Mostrei a máquina a minha mãe e montei-a para tirar algumas fotos com ela, só para a testar, a primeira foto que tirei foi do David a fazer uma careta. Tirei umas quantas mais, até que tive de pousar a máquina porque fui arrastada para a zona onde os meus amigos dançavam, dancei um pouco e estava a divertir-me muito, não podia pedir melhor festa de anos.

“Ele não tira os olhos de ti. Sempre lhe vais contar o que sentes?” – perguntou-me a Andreia.

“Não sei. E ele está a olhar porque está a gostar de me ver assim, e deve estar surpreendido de eu estar a dançar assim. Não estejas com ideias, ele não gosta de mim assim, ele ainda deve sentir algo pela rapariga com quem ele estava.”

“Tu não sabes isso. E devias contar, não perdes nada com isso e ias sentir-te melhor.”

“Eu depois vejo isso. Agora só quero aproveitar esta noite.”

“Então acho que vais aproveitar, porque o David vem aí.” – olhei e vi ele a aproximar-se de mim e da Andreia.

“Catarina, posso falar com você? Só nós os dois?”

“Sim…” – disse sem saber o que esperar daquela conversa.

“Vamos cantar os Parabéns.” – disse a minha mãe, parando a musica.

Dirigimo-nos a mesa, onde estava o nosso bolo, com velas indicando 21 anos em cada ponta e 2 foguetes. Acendemos as velas e os foguetes, apagaram as luzes da tenda e começaram a cantar os parabéns, eu só pensava na conversa que ia ter com o David, o que seria que ele queria falar comigo?

Depressa acabaram de cantar os parabéns, eu e a minha irmã apagamos as velas, retiramos uma e mordemos pedindo um desejo. O meu desejo? Ser feliz, não havia nada que mais desejasse naquele momento. O Ruben tirava fotografias com a minha máquina nova. Eu e a minha irmã partimos o bolo e distribuímos aos convidados, que rapidamente voltaram a pista de dança ou a mesa da comida, a minha irmã foi dançar e eu também era para ir quando me lembrei da conversa com o David e vi que era o melhor momento para ir. Ele saiu da tenda primeiro e eu fiz o mesmo pouco depois, andamos um pouco em silêncio, para longe da tenda, para longe de todos, pisando o relvado daquele local, ouvindo ao fundo o barulho da tenda e da feira.

“O que querias falar?” – resolvi quebrar o silêncio, visto que ele não o fez.

“Queria saber como você tá. Como se tá sentindo? Faz um tempo que não falamos nem tou com você.”

“Estou bem.” – disse sem olhar para ele

“Não tá bem não. Não me engana Catarina. Eu conheço você e isso já não pega comigo. Me conta a verdade.” – sentei-me na relva, e ele sentou-se à minha frente.

“A verdade é que podia estar melhor. Na escola tem sido mau, continuam a gozar comigo, a chamar-me de coitadinha, a dizer que ninguém gosta de mim, que fui eu que disse as revistas que tu eras o meu namorado e que tu só és meu amigo e estas comigo por pena.”

“Não fique ligando a isso, eu sei a verdade e você sabe também, eles tem inveja de você me conhecer e ser seu amigo. Não liga a eles, se não ligar eles param.”

“O problema é que não param, percebes, David? E fazem-me acreditar que é verdade, porque em parte é. A maior parte das pessoas me olha com pena, a única coisa boa nisto é que sei quem são os meus verdadeiros amigos, e são poucos, mas tem me dado algum apoio e me defendido quando não consigo.” – fiz um esforço para não chorar, não queria que ele me visse assim.

“Ainda bem que você tem pessoas que a apoiam. Você merece tudo de bom. E você tem alguém que conheceu e ficou gostando? Namorado?”

“Não.” – cada vez mais era difícil controlar as lágrimas.

“Porquê? Catarina, você é linda, incrível, a melhor garota que conheço. Qualquer pessoa seria sortuda em ficar com você. Eu tou achando que em Portugal há muita gente que não vê bem não. “ – comecei a chorar.

“Porquê? Porque nunca ninguém vai ver para alem disto, destas marcas, todos os rapazes que conheço ou já sabem quem sou e tentam usar-me para chegar a ti, ou se não sabem, quando vêem ou não querem nada comigo ou tem um encontro comigo por pena. E não consigo confiar em pessoas assim, o Ruben viu-me para alem disto, amava-me por quem eu sou, mas estava tão partida, tão desfeita, que nem confiei nele o suficiente para lhe dar uma hipótese, para tentar poder voltar a amar. E agora que consigo fazê-lo, não posso…” – senti a mão do David a limpar-me as lágrimas que não paravam de cair.

Vi nos olhos dele o quanto destroçado ele estava por me ver assim. Sabia que se ia dizer-lhe o que sentia só tinha esta oportunidade, visto que ele depois ia voltar às férias dele e talvez pudesse vir a sair do clube ainda este ano. Mas tinha medo, muito medo de poder perder tudo o que tínhamos se lhe dissesse.

“Não pode o quê?”

“Não posso dar o meu coração David. Porque ele já não me pertence. Pertence a alguém que não posso ter, alguém que não quero perder, alguém que me vê como sou, alguém que vê para lá destas imperfeições, deste defeito.” – mostrei-lhe os pulsos com as cicatrizes, afastando as pulseiras.

“Isto não é defeito, não é imperfeição. Faz parte de você. É o que torna você é única, e você é perfeita de uma forma diferente, é um perfeito único, porque mais ninguém tem esta perfeição. Isto é perfeito Catarina.”

Ele disse, olhando-me, agarrando-me no pulso direito, passou o dedo polegar na cicatriz, percorrendo-a, fazendo-me arrepiar e respirar fundo. Aproximou-se da cicatriz como se fosse observá-la melhor, aproximou os lábios da mesma e beijou-a. As lágrimas não paravam de cair, aquele simples gesto, aquelas simples palavras fizeram com que eu me apaixonasse mais por ele, com que eu o amasse mais, se isso fosse possível.

Não pensei no meu próximo passo, reagi com o coração, deixei-me levar pelo que sentia. Mal o olhar do David se cruzou com o meu, beijei-o, pressionei os meus lábios contra os dele, por um instante, uns segundos apenas, não senti nenhuma reacção dele e ali soube que ele não sentia o mesmo que eu. Quebrei o beijo, quando abri os olhos, não vi nenhuma reacção do David, e juro que ouvi o meu coração a partir-se, sabia que o tinha perdido, ele nunca mais ia conseguir ter uma amizade comigo porque ia achar que eu o ia ver assim. Fui estúpida em o ter feito pouco tempo depois de as coisas com a rapariga que provavelmente ele amava terem acabado por mim. Levantei-me e fugi, não conseguia olhar para ele sem sentir dor, corri até onde as minhas pernas me levavam, corri para fugir do passado, para fugir do presente, corri até deixar de sentir nada mais que dor.