Quando parei de correr nem sabia como respirava, doía tanto, doía mais do que qualquer dor possível, as forças faltavam-me e sentei-me no relvado. Desejei desaparecer, ir para longe de tudo e todos, para esquecer, para fazer me fazer crer que isto tudo não era mais que um pesadelo, mas não o podia fazer. Senti-me vazia, como se já não valesse a pena viver, mas a dor era diferente da dor que habitualmente sentia, a vontade de fazer uma loucura não existia, apenas existia uma grande vontade de chorar.
Tinha tudo acabado, por culpa minha, agora nada ia voltar a ser igual. Quando o conheci, a minha vida mudou em todos os aspectos, sobrevivi e ganhei um anjo da guarda, que me protegeu de tudo e de todos o melhor que podia, até protegeu de mim mesma. Ele fez-me sentir feliz, fez-me acreditar que eu podia ser feliz, fez-me voltar a confiar e a amar.
Mas agora, não sei quando vou voltar a confiar em alguém, quando vou voltar a amar alguém, porque a única que pessoa que confio, que amo rejeitou-me e provavelmente vai-se afastar de mim. Porque é que todas as pessoas que amo me abandonam?
Continuei a chorar, o meu telemóvel vibrava incessantemente no bolso do meu vestido. Sabia que era ele, não ia atender, não conseguia, só ia doer mais e precisava de estar afastada dele. O telemóvel parou de tocar durante um bom bocado, ele deve ter-se cansado de ligar. Olhei para as estrelas, e não pude deixar de perguntar que mal tinha eu feito para merecer isto? Porquê eu? Voltei a sentir o telemóvel a vibrar, vi o número e desta vez não era ele, mas o Ruben. Atendi, mas não respondi, não fosse ele do número do Ruben.
“Catarina? Estás a ouvir-me?” – a voz era do Ruben.
“Sim…”
“O que se passa? O David ligou-me desesperado a dizer que não consegue falar contigo e agora ouço-te a chorar.“
“Eu…” – nem conseguia dizer a verdade.
“Disseste-lhe o que sentias não foi? E ele não correspondeu, pois não?”
“Não…” – disse quase num sussurro.
“Oh…estamos preocupados contigo. Não faças nada Catarina, prometes? Podes dizer-me onde estás? Queremos ir ter contigo.”
“Prometo. Quem vem? Não quero ele…” – chorei mais, nem o nome dele conseguia dizer.
“Eu e a Andreia. Não sei do David e não quero ele perto de ti agora. Diz-me como chegar a ti.”
Expliquei-lhe o melhor que podia onde estava, apercebi-me que estava muito longe da tenda e que eles iriam demorar a chegar até mim. Olhei para as estrelas e cantei.
But somewhere we went wrong
We were once so strong
Our love is like a song
You can't forget it
Perguntei-me como iria sobreviver, como iria viver sem ele do meu lado, acho que não vou conseguir aguentar. Ele tornou-se numa espécie de pilar principal da minha vida, sem ele tudo se desmorona. Tudo cai e fica reduzido a nada, e não sei se vou conseguir voltar a reconstruir tudo de novo, se conseguir vai demorar muito tempo, e não sei se aguento voltar a passar tanto tempo a sofrer por algo que talvez se vá desmoronar outra vez. Continuei a cantar, a mesma música, musica que ajudava-me a lidar com a dor, a apagar parte dela, mas desta vez não apagava, apenas acentuava o que sentia.
Somewhere we went wrong
Our love is like a song
But you won't sing along
You've forgotten
About us
O meu corpo estava completamente dormente da dor e só sentia as lágrimas na minha cara porque eram molhadas e frias. E eu iria voltar a ser uma pessoa fria, vazia, um corpo sem alma, um olhar sem brilho, porque estou farta de lutar por algo que nunca vou ser, por algo que nunca vou voltar a sentir, mais vale parar de lutar e de sentir, nunca iria ser alguém, sou nada, não valho nada, o meu pai sempre teve razão.
Ouvi barulho, sabia que já não estava sozinha, devia ser o Ruben e a Andreia. Quando olhei para o lado era a única pessoa que não queria ver, nem estar perto. Levantei-me, pensei em fugir, mas sabia se desta vez o fizesse ele me apanhava logo.
“Catarina…”
“Não tenho nada mais a dizer-te…” - disse olhando o chão e passando por ele, tentando-me afastar.
“Espere. Me deixe explicar.” – a mão dele agarrou no meu pulso e puxou-me para ele.
“Larga-me. Larga-me!” – gritei, tentei soltar-me dele, mas sabia que não ia conseguir.
“Depois de eu explicar eu largo. Mas tem de me ficar ouvindo.”
“Ok.” – respondi, olhando para o chão.
“Sou eu quem tem o seu coração, Catarina?”
“Sim…” - disse num sussurro, sentindo as lágrimas nos meus olhos.
“Porque não falou? Porque ficou sofrendo?”
“Porque não queria estragar tudo, mas acabei por o fazer na mesma. Fiz com que o teu namoro acabasse, e destrui tudo o que tínhamos, porque sei que agora vais-te afastar de mim, porque não me vês mais do que uma amiga e não consegues estar comigo sabendo o que sinto.”
“Você não tem culpa de nada. Fui eu que terminei, quando você tava no hospital ela disse que tinha de escolher entre ela e você Catarina, ela falou que eu tava demasiado preocupado quando você tava mal, mais do que devia e ela exigiu eu escolher o que era mais importante para mim e sabe o que fiquei escolhendo.” – senti a mão dele na minha cara, a tentar limpar as lágrimas.
“Não me toques!” – a mão dele deixou a minha cara.
“Na altura não fiquei entendendo algo que ela falou, ela falou que o escolhi não tava longe do que sentia, mas agora sei. Catarina eu te…”
“Não digas, tu não o sentes David, só dizes isso para evitar que eu faça algo de mal.”
“Não. É a verdade. Te amo Catarina e não vou parar enquanto você não acreditar em mim.”
“Não acredito, como sei que é isso que sentes? Como sei que não me estas a mentir? Não consigo acreditar, perdi a confiança em ti.”
“Me olhe nos olhos, me diga o que ta vendo, me diga se tou mentindo.” – senti a mão dele que agarrava o meu pulso a puxar-me para mais perto dele.
Pela primeira vez desde o inicio da conversa, olhei-o nos olhos, mas não conseguia ver bem o que ele sentia. Sempre fui capaz de ler sentimentos das pessoas que conheço com o olhar, saber se estão a dizer a verdade, mas ele era um turbilhão de coisas, uma indefinição, se era verdade ou não, ou então era eu, blindada, por tanta dor que não via realmente o que é verdade.
“Não consigo, não sei o que vejo…”
“Te amo Catarina, acredite por favor...” – continuei a olhar, mas nada.
“Não consigo…” – sentia as lágrimas a cair, a dor, coisas do passado na minha cabeça.
“O que diz o seu coração?”
“Não sei…está dividido.”
“Mas ele sabe o que você sente por mim.”
“Sim…”
Senti a mão que agarrava o meu pulso direito a segurar-me na mão e a leva-la na direcção do peito dele. Ele colocou-a no peito, na zona do coração e segurou-a lá.
“O seu coração bate por mim. Sinta se o meu tá batendo da mesma forma, se ta batendo por você.”
Sentia o meu corpo todo a tremer, aquele simples toque no peito dele fez bater o meu coração com uma intensidade inexplicável, naquele momento o meu coração reagia ao simples toque com o David, o olhar dele esperava por algo, por algum sinal, algo que dissesse o que eu acreditava. Ouvi o coração dele, a pulsar na minha mão, batia intensamente, respirei fundo, deixei-me levar, apenas a sentir. Devia ouvir dois corações bater, devia sentir dois batimentos, mas não. Ouvia apenas um, e não sabia de quem era, pensei que fosse o meu coração que deixasse de bater, mas ainda respirava, naquele momento soube e não foram precisas palavras para o descobrir.
“David…” – o nome dele saiu-me dos lábios, num sussurro, como se o meu coração chamasse por ele.
Senti a outra mão do David na minha cara, limpando-me suavemente com o polegar, uma lágrima, senti a respiração dele próxima da minha, os olhos dele mais perto dos meus. Os lábios dele tocaram nos meus, os meus olhos fecharam-se e deixei-me levar pelo que sentia, deixei de ter medo, confiei nele, os lábios do David moviam-se lentamente com os meus, todos os sentimentos dele transpareciam naquele beijo, os nossos lábios era como se soubessem que pertenciam um ao outro, encaixando numa forma única. A mão direita dele continuava na minha cara, fazendo pequenas carícias enquanto a outra continuava a segurar a minha no peito dele, sentindo o coração dele batendo em uníssono com o meu.
Quando o David quebrou o beijo, parecia que o beijo tinha durado um tempo indefinido, como se o tempo tivesse parado naquele instante. Abri os olhos e vi os olhos dele nos meus, sabia que ele devia estar a sorrir, pois vi o olhar dele a brilhar daquela forma quando ele sorria.
“Te amo Catarina.” – e uma mão dele passou pelos meus cabelos, retirando-os da minha cara.
“Eu sei. Amo-te David.”
Sorri, passei uma mão pelos caracóis dele e ele envolveu-me com os braços, puxando-me para o peito dele, eu coloquei os meus braços de volta dele, olhei nos olhos dele e ele beijou-me novamente, apenas um simples beijo curto, mas que selava que pertencíamos um ao outro, que selava o nosso amor.