Acordei no dia seguinte, e voltei a sentir-me como não me sentia há muito, senti-me repousada, foi uma noite calma, ainda me perguntava porque tive tanto medo de adormecer. Ainda me sentia meio a dormir, fui à cozinha, tirei o leite do frigorifico e uma caneca e aqueci no microondas, retirei-a e senti a caneca morna nas minhas mãos, dirigi-me à sala, sentei-me no sofá e acendi a televisão.
“Oi. Bom dia Catarina. Como foi a noite?” – olhei para o lado e vi o David sentado na mesa com uma caneca na mão.
“Bom dia David. Foi boa, não aconteceu nada de mal, pelo menos que me lembre.” – respondi, com a voz ainda sonolenta e ainda não abria bem os olhos.
“Não vai ficar apenas bebendo isso pois não? Tem de comer algo e tomar os comprimidos.”
“Sim, mãe. Eu já como, prefiro beber primeiro e comer só depois. E vou tomar o comprimido, não te rales.” – ele estava a rir-se e eu não estava a achar piada nenhuma.
“Já se olhou ao espelho?”
“Não, achas? Acabei de acordar. Não me digas que tenho baba seca na boca ou o meu cabelo deve parecer o de uma bruxa todo despenteado.”
Levantei-me e fui ao espelho mais próximo, quando me vi ao espelho não tinha baba na boca, o meu cabelo até nem estava muito despenteado, mas quando olhei bem para a franja tinha metade dela espetada parecia que tinha apanhado um choque.
“Já vi. Se era suposto ter graça não achei graça nenhuma. Isto é o que dá de ter franja há pouco tempo. Malvada franja.”
“Ok, já parei. Não quer ir ao jogo hoje?”
“Não.”
Ele não pressionou mais. Ele sabia que o estádio e o jogo podia causar más memórias e não queria forçar-me a nada.
“Sabe onde tá tudo certo? Não vou poder atender ou estar ligando daqui a umas horas, Catarina. Fica bem?
“Sei, e sei disso do telemóvel. Fico bem sim. Vai, não quero que te atrases por mim.”
Ele aproximou-se de mim, abraçou-me, deu-me um beijo na cara.
“Fica bem. Eu volto rápido.” – agarrou nas coisas e saiu.
Fiquei sozinha, resolvi tomar um duche, dei um jeito ao meu cabelo que ainda estava vesti um par de skinny jeans, uma t-shirt branca e um pulôver verde, nos dias que o Benfica joga tenho sempre a tendência de me vestir de verde, joguei um pouco de consola e estou a melhorar de dia para dia, depois estive no meu portátil a trabalhar para a minha escola, ouvi música e falei com uma amiga minha que por acaso é do Benfica, desconhecendo totalmente onde eu realmente estava.
Agarrei na minha máquina fotográfica e tirei uma ou duas fotos a mim para ver se mudava a minha foto no meu facebook, acabei por tirar 10 e só aproveitei uma e mesmo assim não a ia pôr no facebook.
A hora do jogo estava próxima, sentei-me no sofá e esperei, não era o meu clube, mas ia apoiar o David e o melga também. O jogo passou rápido ou pelo menos foi o que me pareceu, irritei-me em alguns lances quando o David ou o melga falhavam, mas foi mais durante o principio do jogo, depois até jogaram bem e falharam pouco, o jogo acabou com uma vitoria do Benfica e uma boa exibição do melga e do David.
Estava a ficar um bocado cansada, muitas noites mal dormidas e a deitar tarde, não estavam a ajudar, agarrei no telemóvel e mandei uma sms ao David.
“Estou cansada, vou-me deitar, desculpa por não esperar por ti. Parabéns pela vitoria e pelo jogo que fizeste. Beijos.”
Não recebi resposta, ainda não devia ter visto o telemóvel. Fui para o quarto vesti o pijama e deitei-me, pouco depois adormeci, apesar de lutar contra o sono. Depressa percebi que a noite não ia ser como a outra, senti dor, ouvia a voz do meu pai a dizer que não valia nada, lutei para não me magoar, mas a dor consumia-me, senti as lágrimas na minha cara, olhei para os pulsos e vi os golpes, vi o sangue a escorrer, mas a dor continuava e o sangue continuava a escorrer, rodeando-me num mar vermelho. Gritei, mas não ouvi a minha voz, ouvi a chamarem o meu nome e acordei.
Vi-o, e senti os braços dele à minha volta, a dor do sonho continuava, o meu corpo tremia, sentia os pulsos a arder, queria falar mas não saia nada, apenas chorei, chorei até não ter mais lágrimas, chorei até o meu corpo ficar dormente de tanta dor, sentia o calor do corpo dele, o toque dele, uma mão a passar pelos meus cabelos e um braço a abraçar-me, o cansaço voltou a dominar-me, ele deitou-se ao meu lado nunca largando-me, continuando com uma mão nos meus cabelos, vi a cara dele, pouco iluminada, mas era visível o que ele sentia, via a dor, o sofrimento e o desespero dele de me ver assim. Adormeci novamente, desta vez sem pesadelos, mas com a cara dele cravada no meu pensamento.