Capitulo 8
Não sei quanto tempo passou, só sei que não tinha mais lágrimas para derramar, apenas olhava para a camisola nas minhas pernas, a única coisa que no quarto que tinha cor, que transmitia-me vida.
Eu não sentia nada mais a não ser dor, tudo o resto estava adormecido.
“Menina, tem visitas.” – olhei para a porta e vi a enfermeira de há bocado, nem reagi ao que ela me disse, não me importava se tinha visitas ou não.
“Catarina, filha, como estás?” – a minha mãe apareceu à porta com a minha irmã.
Não reagi, não tinha nada para dizer, era como se estivesse ali o meu corpo, mas não o meu espírito, a minha alma, ao meu lado a olhar para um corpo sem vida.
“Mana, o que se passa? Dói-te alguma coisa?”
Olhei para a minha irmã e reagi, acenando que não.
“Catarina, o que se passa? Diz algo.”
“Estou cansada.” – respondi, mas não era isso que queria dizer.
Não queria criar discussões ou drama, não queria explicar nada, não queria faze-las sofrer mais agora, apenas queria que não perguntassem que ficassem apenas ali comigo, mas sabia que não ia acontecer e fazer com que elas se fossem embora era a melhor solução.
Pouco tempo depois elas saíram e fiquei de novo sozinha, liguei a televisão e estava nas notícias, ia começar as de desporto. Deu do jogo do Benfica, mas o que veio a seguir fez me voltar a sentir tudo. Na televisão passava o que me tinha acontecido, depois do jogo, uma rapariga não identificada, estava ferida ou algo assim, a estação de televisão não tinha informações concretas e a camera que estava a filmar não estava propriamente perto, mas era visível que estava alguém ao colo do David, ele segurava na pessoa como os recem casados fazem, não se via a cara dela escondida no peito dele, via-se desespero nele e sangue, que quando ele a largou na ambulância era bem visível no tronco dele.
Arranquei os tubos que tinha ligados a mim, senti os meus pulsos a arder, as lágrimas tinham começado ao inicio da reportagem e eram cada vez mais, sentia dor, levantei me e a força faltou-me mal dei um passo, cai no chão, queria voltar a acabar com tudo, mas não encontrava nada com que me magoar. A reportagem continuava na tv, via-o a o olhar para as mãos ensanguentadas, completamente perdido e a minha dor aumentou, não sentia mais nada a não ser dor, ele não merecia nada daquilo.
Senti alguém a agarrar-me, mas mal tinha forças para olhar quem seria, nem conseguia agarrar-me, senti a ser levantada do chão para o colo de alguém, olhei e vi-o, imediatamente chorei mais, estava na mesma posição do que tinha visto na televisão, e ele estava desesperado como não soubesse o que fazer para me acalmar.
Comecei a tremer, sentia frio, mas devia ser a única, senti ele a agarrar-me com mais força, e a deitar-me na cama, não conseguia larga-lo, se o largasse não ia aguentar. Ele deve ter notado e não me largou, sentou-se na cama comigo e eu aninhei-me mais a ele, com frio, de me sentir desprotegida sem ele a agarrar-me, encostei a cabeça ao peito dele e deixei as lágrimas cair.
“Catarina…” – olhei para ele.
“Desculpa David…falhei.”
“Não. Não faz mal. Eu estou aqui.” – senti uma mão a passar pelos meus cabelos.
Não se ouviu nem mais uma palavra, não era preciso, a mão dele continuava a passar pelos meus cabelos, apenas ouvi a respiração dele e a minha e o coração dele a bater, num ritmo acelerado, mas que estava a diminuir, até bater de forma calma e constante, tendo um efeito calmante em mim, como uma musica de embalar, a escuridão envolveu-me, mas os meus olhos só viam ele nada mais.