Pouco depois despedi-me dele, ele tinha de ir e não o ia prender mais tempo. O resto do dia foi estranho, não conseguia fazer nada sem sentir dor, parecia uma invalida e isso irritava-me, até para me despir e vestir tive de pedir ajuda, sou patética. A minha irmã estava a fazer a mala para ir para o Algarve para as aulas, e só falava no momento, coisa que não era verdade, não era momento nenhum. A minha mãe foi-se deitar de não andar a dormir nada e porque ia trabalhar e ter aulas no dia seguinte. Também me fui deitar, a minha mãe praticamente obrigou-me a fazê-lo, porque precisava de descansar para recuperar bem, mas não tinha sono, ainda era demasiado cedo. Agarrei na camisola dele e voltei a colocá-la nas minhas pernas, mas ainda não me sentia bem. Agarrei na camisola de maneira que não sentisse muitas dores, e tentei adormecer.
Acordei no dia seguinte, sem pesadelos, tal como tinha acontecido no hospital quando segurei na camisola. A minha mãe já tinha saído para o trabalho e a minha irmã só ia almoçar comigo e depois ia.
Horas depois, estava sozinha em casa, anoiteceu. Vi televisão e tentei entreter-me com o que tinha mas estava a aborrecer-me. Ir para o computador não era opção, os meus pulsos ardiam ao mínimo movimento. O meu telemóvel tocou e pensava que fosse a minha mãe para saber como estava, ou a minha irmã. Olhei para o numero no ecrã e não quis atender, era ele. A chamada parou pouco depois mas ele voltou a insistir, se não atendesse ele ia continuar até o fazer.
Agarrei no telemóvel e atendi.
“Que queres? Porque não paras de ligar?”
“Queria saber como estavas, ouvi dizer que estas doente ou algo assim.”
“Agora já me ligas? Já sou importante para ti? Agora que achas que estou mal?”
“Claro és minha filha. Claro que me importo.”
“Não foi isso que disseste no outro dia. Quando estou bem não queres saber de mim. Só queres discutir e dizer que eu, a mana e a mãe queremos viver às tuas custas. Não ligues mais.”
“Porque? E é verdade era o que vocês iam fazer. Não queres que eu ligue? Isso quer dizer que não valho nada para ti?” – já sentia as lágrimas a cair e a dor a aumentar sem parar.
“Foi o que disseste a mim e à mana. Não quero falar mais.” – e desliguei o telemóvel.
Queria gritar mas tinha a voz presa na garganta, apenas sentia a dor a consumir-me, queria magoar-me, queria apagar a dor, olhei para os meus pulsos ligados e tentei gritar mas não ouvia nada, comecei a tremer, não sabia o que fazer, parte de mim gritava para não me magoar, outra desejava ver o sangue a escorrer e a dor a adormecer. Carreguei no telemóvel e liguei para o único número que sabia que ia atender, que sabia o que fazer.
“David…”- mal ouvia a minha própria voz.
“Catarina, está chorando, que foi?”
“Dói…”
“Está sozinha? Dói onde? Me diz o que se passou.”
“Sim. Dói tudo, quero deixar de sentir dor, quero libertar-me.”
“Não. Respire fundo, não vai fazer nada não.”
“Dói tanto, não sei o que fazer, só quero parar isto.”
“Não! Catarina, eu vou ter com você, não faça nada. Fale comigo, não desliga.”
“Não vou desligar, não vou desligar.”
Ouvi uns barulhos de uma porta a fechar e chaves e pouco depois de um carro a trabalhar.
“Ainda está aí?”
“Sim…”
“Não desliga, fala pra mim. Fala algo, pode ser algo bobo.”
“Tenho medo…uma parte de mim grita para ir à cozinha, estou tão perto dela, porque é que ele ligou? Porquê agora? Porque é que ele magoa-me sempre?”
“Fica aí, não vai a lado nenhum. Fica falando comigo, não vou demorar até chegar.”
Continuei a falar com ele, as vezes não dizia nada, só chorava e ele ficava ainda mais preocupado, não dizia muito, as vezes só respondia o que ele me perguntava, tremia de frio, mas a minha casa não estava fria, embrulhei-me num cobertor, milhares de imagens más e horríveis passavam pela minha cabeça, mas eram imagens que me davam uma sensação de liberdade, via uma lâmina na minha pele, via vermelho, sangue. Gritei.
“Catarina! Estou quase, você está bem?”
“Não…não aguento.”
Ouvi tocar à campainha pouco depois, abri a porta e fiquei à porta à espera dele, tinha medo se saísse dali que fosse a correr para a cozinha e agarrasse numa faca, coisa que via claramente na minha cabeça. Vi-o e ele abraçou-me, voltei a sentir as lágrimas na minha cara.
“Desculpa…não devia ter ligado.”
“Pode sempre ligar. Eu vou ajudar, estou aqui, vai ficar bem.” – ele parou de me abraçar.
Fomos para a sala e não o larguei, estava com dores de cabeça, provavelmente de chorar tanto. Continuava a tremer e tapei-me com o cobertor, as lágrimas não paravam, estava ao colo do David e ele com um braço à minha volta, como um abraço, e a outra mão passava pelos meus cabelos, tentando-me acalmar, o cansaço dominou-me e adormeci.