Passaram-se alguns dias. Muitos dias, tanto que comecei a fazer o trabalho do doutor, ao principio só escrevia no diário um “Olá” ou um “Olá! Tudo bem?” mas aos poucos comecei a escrever mais sobre os meus dias, e as vezes se me sentia bem ou mal mas não tocava no assunto porque me sentia bem ou mal. As coisas com o David tem andando, tenho estado em casa dele algumas vezes especialmente nos dias de terapia, vou sempre embora quando ele tem treino ou quando já e tarde. Como vivo longe vou sempre de comboio para Lisboa, e se bem que ao princípio mal parava de falar com ele ao telemóvel durante todo o caminho porque tinha medo, agora já não custava tanto. Na escola ainda não me sinto bem integrada, mas já me dou com algumas raparigas da minha turma, os rapazes provocam e desconfiam de algo e tenho medo que eles descubram, mas até agora tenho tido sorte. O Ruben tem sido uma surpresa e tenho adorado conhecê-lo, também conheço o Gustavo e também é uma pessoa muito boa, apesar de não estar com ele muitas vezes, mas a única pessoa em quem confio plenamente é o David e não consigo explicar como confio tanto nele.
A terapia continua a mesma coisa, já tive algumas crises no consultório cada vez que se toca no passado, e tive já alguns pesadelos, mas consegui controlar.
Hoje é dia de terapia e folga dos treinos, hoje vou parar a casa do David e devemos jogar mais, ou ver filmes, e o Ruben deve vir atrás, o Ruben é a melga, eu chamo-lhe melga e ele não acha piada.
“Olá Catarina, como está?”
“Aborrecida. Outra sessão…hoje qual é o plano das festas?” – o David ria-se, plano das festas era o que iríamos falar na sessão, o programa, a planificação.
“Vai-me ler do seu diário e depois vou sugerir algo que creio que lhe vai fazer bem. Sei que tem tido pesadelos em casa quase constantemente e quero fazer um teste.”
“O que quer fazer doutor?” – perguntou o David.
“Quero fazer com que a Catarina fique na sua casa por um fim-de-semana, visto ela não ter aulas nessa altura, quero ver se o ambiente influencia os pesadelos dela, e se a mudança de ambiente melhora os pesadelos.”
“Concordo, tem de ser quando o Benfica jogar em casa.”
“Se correr bem os pesadelos dela em casa podem diminuir, e se for necessário a Catarina ficará na sua casa mais vezes para ver se melhora cada vez mais. Concorda Catarina?”
“Não posso discordar, não é? Lá vai ter de ser.”
“Não queria? Você não gosta de mim?” – e o David começou a fazer beicinho, não resistia aquele beicinho.
“Gosto, mas não quero incomodar-te David.”
“Não incomoda nada. Fica no próximo fim-de-semana, há jogo em casa.”
“Ok. É só combinar depois como é para ir ter contigo e quem me vem buscar aqui.”
“Agora vem pra minha casa. Hoje vamos ver um filme.”
Pouco depois estávamos na casa dele, voltei a descalçar-me e ele foi à cozinha e fez pipocas de microondas e trouxe uma tigela enorme cheia de pipocas, ele sentou-se ao meu lado e pôs o filme a começar quando tocaram à porta.
“É o melga? Não o deixes entrar.”
“Acho que sim. Coitado do manz. Ele gosta de você e é assim?”
“É só porque ele é um melga e esta sempre a elogiar-me cada vez que me vê.”
“Não gosta disso? Muita garota gosta.”
“Eu não sou como as outras, tenho um limite de elogios. Ele é querido, mas um chato. ”
“Manz! Veio ver a Catarina? Vamos ver um filme, quer ficar?”
“Olá Catarina, como está hoje a rapariga mais linda de todas?” – ele aproximou-se de mim e deu-me um beijo na cara sem eu esperar.
“Bem. Senta-te e cala-te, o filme vai começar.”
Estava no meio do Ruben e do David, o filme era uma comédia romântica, as pipocas ficaram no meu colo, porque se fossem no do David ele comia-as todas e se fosse o Ruben não deixava o David comer. Durante o filme ouvia-se os nossos risos e o barulho a comer pipocas, a minha mão foi a tigela e senti outra mão na tigela com a minha, estranhamente a mão tocou na minha e passou por ela suavemente, a sentir a minha pele a acaricia-la, arrepiei-me daquele toque, fiquei nervosa, mas não olhei de quem seria a mão mas sabia que só podia ser do Ruben, eu conhecia bem o toque do David era um toque que me dava segurança, um toque que já tinha sentido montes de vezes quando estava pior. Deixei de sentir a mão na minha e pouco depois olhei para o Ruben, ele parecia com atenção ao filme, como se nada tivesse acontecido, mas eu sabia e não sabia o que havia de pensar ou sentir daquilo que se tinha passado.