A minha mãe abriu a porta para eu sair, nem tinha força para abrir a porta de um carro, era mesmo uma inútil. Aproximei-me do carro dele e estava a conhecer o modelo, era um Q7, o carro dos meus sonhos, na cor que queria, branco.
“Está gostando do que vê?”
“Amo. Este carro é o carro dos meus sonhos e com a cor que mais amo. Para mim os únicos carros que ficam bem brancos são os Audi e os BMW.”
“Tem bom gosto. Vamos?”
Chegamos a porta do consultório do psiquiatra e comecei a tremer, tinha medo. Não queria falar, não queria lembrar-me de tudo. O psiquiatra abriu a porta e pediu à minha mãe e irmã para entrarem primeiro. Eu fiquei com o David no exterior e sentamo-nos numas cadeiras.
“Nervosa?”
“Assustada.”
“Porquê?”
“Não quero falar, não quero lembrar-me. Não quero.”
“Vai ter de ser. Não agora, não estou mandando que o faça, mas vai ter de falar ou nunca vai melhorar.”
“Não quero, é doloroso.”
“Eu sei, mas estou aqui para ajudar.” – e senti a mão dele a agarrar na minha e aperta-la ligeiramente.
A porta abriu-se a minha mãe e irmã saíram, e ele fez sinal para eu entrar, mas eu não queria largar a mão do David, não queria entrar sozinha, comecei a tremer, senti a mão dele a agarrar-me com mais força. O psiquiatra fez sinal para o David entrar também comigo e entramos sem ele nunca me largar a mão. Deitei-me naquelas cadeiras de psiquiatra o David largou-me a mão e sentou-se numa cadeira.
“Hoje é só uma pequena sessão, não vou força-la a nada, só quero que me conte o que se passou, o que fez, Catarina.”
“Veja com os seus próprios olhos.” – e mesmo com dores arregacei um pouco da minha manga e viu-se o meu pulso ligado.
“O que sentiu quando o fez?”
“Senti que devia morrer, que sou uma inútil, uma falhada.” – comecei a chorar.
“E porquê se sentiu assim?”
Só de pensar nisso comecei a chorar mais, a tremer, a querer magoar-me, fechei os olhos.
“Catarina? Está a ouvir-me?” – eu ouvia, mas não tinha reacção.
Senti alguém a agarrar-me, abraçar-me e tentei soltar-me, parecia que me queimava o abraço, provocava-me mais dor.
“Catarina, Catarina, sou eu. Calma…” – reconheci a voz e abri os olhos.
Ainda tremia, mas já não ardia o toque dele, encostei-me mais ao corpo dele, sentia-me insegura, desprotegida, sentia que ele era a única coisa que me protegia.
“Desculpa, desculpa, desculpa.” – mal ouvia a minha própria voz.
“Está tudo bem, já passou.”
“A sessão terminou, foi suficiente para ver o que se passa e para tentar perceber os limites da Catarina. Só te quero pedir uma coisa David, podes vir às sessões da Catarina?”
“Porquê? Posso depende das horas.”
“Apercebi-me que ela fica mais calma e segura perto de ti, ela vê-te como uma espécie de protector, salvador, um herói. Há pessoas que podem fechar-se completamente para toda a gente e só conseguirem falar para uma pessoa, conseguirem contar o que se passa, o que sentem a essa pessoa unicamente. ”
“A Catarina é assim. Mas ela disse que não confia em mim.” – ele continuava a abraçar-me enquanto eu me acalmava, ouvia tudo mas não conseguia falar, não tinha forças para isso, só tinha para chorar.
“Com o tempo isso pode mudar, ela até pode já confiar e certas atitudes dela me fazem pensar nisso, mas ela pode não se aperceber desse facto.”
Fiquei a pensar naquelas palavras, será mesmo que já confiava nele? Apenas com tão pouco tempo?