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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Rescue Me - Capitulo 5


Aviso: Este capitulo baseia se em factos reais, numa história verídica, fala de assuntos susceptiveis, nao me responsabilizo pelo que possam sentir ao ler.


Comecei a pensar se isto tudo seria verdade, podia ser apenas um sonho, mas parecia tudo tão real, sentia dor nos meus pulsos ao mínimo movimento, tinha o David Luiz ao meu lado e a camisola dele em cima das minhas pernas.

“Está a pensar no quê?” – olhei para ele sentado ao lado da minha cama.

“Estava a pensar que isto pode não ser real, talvez seja só um sonho, um pesadelo, mas no estádio foi tão real. Talvez eu morri mesmo.” – senti a beliscarem-me no braço e dei um grito.

“Sonho não é. Desejava que fosse?”

“Sim. Se estivesse morta talvez fosse melhor. Não sei como vou encarar toda a gente agora, mas o pior não é isso, o pior é a dor que sinto.”

“Não diga isso! Dói algo, Catarina? Quer que chame alguém para lhe dar algo?”

“Não é essa dor, esta dor não se cura assim. È uma dor que está sempre dentro de mim, umas vezes adormecida outras não, uma dor que me consome, que me destrói de dentro para fora. E complicado de explicar, o que sinto é indescritível.”

“Compreendo e percebo. Nunca vou esquecer esse dia e o que vi.”

“Acredito, o meu sangue, deve ter sido demasiado, não foi? Desculpa David Luiz.”

“Me chame só de David. Não foi só o sangue, nunca vou esquecer o seu olhar, vi dor, desespero, vazio. Mas quando olhou para mim, os seus olhos ganharam vida, pediram ajuda e nunca vou esquecer isso, não a podia deixar morrer, tinha de fazer algo.”

Olhei nos olhos dele e senti me impressionada pelo que ele disse, mas mal porque ele nunca ia esquecer o que aconteceu.

“Desculpa David. Não queria que mais ninguém sofresse por mim, mas por culpa minha tu nunca vais esquecer o que se passou e não queria traumatizar-te. Devia ter morrido, assim não via mais ninguém a sofrer por mim.” – lutei para não voltar a chorar, mas voltei a sentir dor, fechei os olhos e senti uma lágrima a escorrer.

Senti uma mão na minha cara e abri os olhos, sabia que aquela mão só podia ser de uma pessoa.

“Não me toques! Não quero a tua pena, não quero nada! Só preciso de ficar sozinha.” – gritei e desviei a cara dele.

“Não vai ficar sozinha, não vou deixar, não quero que faça o mesmo de novo.”

“E se fizer? A dor é demasiada, não sei se aguento.”

“Aguenta sim. Catarina, porquê? Porque é que se tentou matar?”

“Queres mesmo saber, David? Não sei se consigo contar, dói muito.”

“Não é preciso ser agora, mas se for, estou aqui, prometo.”

“Não prometas algo que não podes cumprir!” – gritei e senti mais lágrimas a cair.

“Mas eu vou cumprir.” – olhei nos olhos dele e algo fez me ver que ele não estava a mentir.

“Eu conto. Tens tempo?”

“Todo o tempo.” – respirei fundo e comecei a contar.

Isto tudo começou há 2 anos atrás, quando o meu pai decidiu sair de casa, porque tinha uma amante mais nova do que ele quase 20 anos. Nesse dia ele tratou-me a mim e à minha irmã muito mal, disse que nós não valíamos nada para ele. Como é que um pai tem coragem para dizer isto aos filhos?

Mais tarde, pediu desculpa pelo que disse, disse que estava de cabeça quente e disse as coisas sem intenção, perdoei-o mas não completamente, ele magoou-me muito. Prometeu-me que iria dar-me a mim e à minha irmã dinheiro para as despesas que tivéssemos.
Nisto passou-se um tempo, a minha mãe entrou numa grande depressão e mal comia, só chorava, eu não conseguia fazer nada para a animar, a minha irmã também entrou numa depressão por causa do meu pai. Ela tinha ataques de ansiedade, sentia-se mal e tremia muito, foi ao psiquiatra e ficou medicada.
Eu fui a única menos afectada por esta situação, uns meses mais tarde, tudo piorou. Já não recebíamos dinheiro do meu pai e começamos a ficar mal economicamente e fiquei em risco de ser posta na rua. Com isto tudo, a minha mãe piorou e se não chorava, gritava comigo e com a minha irmã, a única coisa que me preocupava era como iria manter a minha família unida, se esta já estava a desfazer-se….

A minha vida piorou a partir daí, só me apetecia chorar e não conseguia dizer a ninguém da minha turma o que se passava, porque estava na universidade e não confiava totalmente nos meus amigos para lhes contar, muito por os conhecer há tão pouco tempo.

Umas semanas depois, estava mesmo mal, não me conseguia concentrar na universidade e não aguentava estar na sala, ao intervalo saí e fui para casa. Chorei e chorei, sentia-me vazia, incompleta, por mais que fizesse a minha vida não melhorava, só piorava, já estava farta de lutar para voltar a ser feliz.

Tentei matar-me, mas não o fiz. Deus salvou-me, pedi um sinal para não o fazer e ele deu me. Uma música começou a tocar no meu mp3 que dizia para não desistir e não o fiz, a minha mãe e irmã nunca souberam, se lhes contasse elas ficariam pior. Mas os telefonemas do meu pai continuaram e ele continua a tratar me mal. E só me lembro de tudo o que se passou quando ele foi-se embora e dói. Ele está semanas sem ligar mas quando liga magoa-me sempre. E faz-me acreditar que não valho nada, quando ele me diz isso, que não sou ninguém e dói, magoa, telefonou-me ontem e não aguentei, quebrei e cedi, e agora a dor não pára, nunca parou desde aquele dia e agora estou marcada, marcada para sempre.” – os meus olhos eram só lágrimas, mal via, mas senti a mão dele na minha, e vi os olhos dele, em lágrimas a olhar nos meus.