Acordei no dia seguinte, comecei a ouvir chamarem o meu nome e comecei a estranhar. Senti-me mais quente que o normal, como se tivessem posto mais um cobertor na cama, ouvi uma respiração que não era a minha e senti que estava agarrada a ela que não eram os lençóis da cama, sentia um coração bater. Fiquei assustada, abri os olhos e quando vi o que se passava acalmei. Estava a dormir na cama do David e estava agarrada a ele como se ele fosse um urso de peluche grande, com o meu braço esquerdo à volta do corpo dele, olhei para cima e vi que ele estava acordado.
“Bom dia Catarina. Finalmente acordou, estava chamando e você nada.”
“Bom dia David. A chamar?” - disse ainda muito sonolenta.
“Sim. Quero ir ao banheiro e você não desgrudava de mim.”
“Desculpa.” – retirei o meu braço, soltando-o.
Ele levantou-se e saiu do quarto. Dei por mim a pensar na nossa conversa de ontem, sabia que tinha de resolver as coisas com o Ruben, mas o resto da conversa era melhor não pensar muito nisso, não posso ficar mal outra vez.
“Tá pensando em quê?”
“Tenho de esclarecer as coisas com o Ruben, não quero dar-lhe falsas esperanças. Não o quero magoar, mas não gosto dele como ele de mim.”
“Faz bem. Agora tem de ir comer algo e não esquece dos comprimidos. E logo tem terapia.”
“Sim mãe, eu sei mãe.”
Fui fazer o que me mandaram, sim o David manda, não pede, porque ele diz se pede não faço. Quando reparei nas horas tinha de ir para a terapia, sem vontade nenhuma, responder às perguntas do costume e quase de certeza que vou ter de falar deste fim de semana na casa do David.
“Olá Catarina.”
“Olá.”
“Como foi o fim-de-semana?”
“Também conta a 2ª feira? É que se conta, foi bom.”
“Conta hoje sim. Quer me dizer o que se passou para ser bom?”
“Não.”
“Catarina! Tá sendo mazinha.” – deitei a língua de fora ao David.
“O problema é meu. Não me apetece contar, não me apetece estar aqui.”
“Desculpe, ela hoje de manha não tava assim. Eu conto.” – olhei para ele muito seria, para ele não contar tudo, em especial a conversa de ontem.
Não quis ouvir o que ele ia dizer. Pus os phones nos ouvidos e carreguei no Play, não queria lembrar me de certas coisas, via os lábios a mexer tanto de um lado como do outro, mas só ouvia a musica e sentia o meu coração a bater. Algum tempo depois, alguém tocou-me no braço, vi que era o David e tirei os phones dos ouvidos.
“Catarina, aparentemente o que sugeri está a resultar, falei com o David e por ele não há problema nenhum em ficar mais dias em casa dele, ainda é cedo para ter a certeza que este método é realmente eficaz, foi apenas a primeira vez, agora aos poucos vou saber se resulta. A frequência das vezes depende dos vossos horários, mas gostava que fosse 2 fins-de-semana por mês, se der claro, se não puder ser fins-de-semana que sejam pelo menos entre 5 a 7 dias por mês.
“Está bem. Por mim não há problema.”
“Agora queria saber se tem o trabalho de casa e se pode ler algo ou quer que eu leia?”
Agarrei no meu caderno, olhei para o doutor pronto para ouvir-me, olhei para o David sentado ao meu lado e ele deu-me um pequeno sorriso. Sabia o que ia ler, e desta vez não ia ser fácil.
“Porque é que me sinto assim? Porque é que nada parece estar bem quando aparentemente está? Porque sinto falta de algo que não sei o que é? Porque me sinto sozinha numa sala cheia de pessoas? Porque é que não me sinto amada quando sei que há pessoas que me amam? Porque é que me olho num espelho e não me reconheço? Tantas perguntas, a resposta devia ser simples, mas não é, não sei qual é a resposta e até já me perguntei por ela. Estou farta de não saber, farta de viver sem respostas, farta de me sentir vazia. Odeio-me por isto, odeio-me por não saber quem sou, perdi-me e agora não consigo encontrar-me. Estou farta de tudo, farta da minha vida.” – já lia a gritar e com lágrimas a mancharem as palavras escritas, palavras que diziam uma parte do que sentia, palavras que traziam nada mais que dor e lágrimas, palavras que estavam a ser apagadas daquelas linhas, mas nunca iam ser apagadas da minha vida.