Acordei e pensei que tudo fosse apenas um sonho, não tinha tido nem um pesadelo dos habituais, e tinha conseguido dormir a noite inteira sem acordar uma única vez. Mas quando abri os olhos ainda estava no hospital, tinha a camisola nas minhas pernas, estava deitada na cama ligada aos tubos. Pensei logo que tudo era verdade tirando a parte do que vi na televisão e de ele ter estado comigo, ele não estava no quarto comigo e não havia qualquer sinal de ter estado, logo foi um pesadelo que acabou menos mal, não sendo nem pesadelo nem sonho.
“Catarina, está melhor?”
“David? Melhor do quê? Ontem não foi um sonho pois não?” – perguntei olhando para ele.
“Não.” – ele sentou-se ao meu lado.
“Desculpa.”
“Não tem de estar pedindo desculpa. Eu quis ajudar, você não consegue controlar, deve ter sido difícil ver o que passou.”
“Eu sei, mas custou-me mais ver-te assim. Ver o que te fiz passar. Eu não queria.”
“Não interessa. Só quero ver você bem.”
“Posso?” – olhei para a porta e vi um médico.
“O que se está passando? Há algo de errado com a Catarina?”
“Nada de errado, ela está a recuperar bem, mas temos de falar sobre terapia. Tem de ser acompanhada por um psiquiatra.”
“Não quero. Não vou falar.”
“Catarina.” – o David falou.
“Não. Não consigo. Nem a minha família sabe, não me vou abrir com um psiquiatra, um estranho, se nem com a minha família o faço. Ainda nem percebo como te contei, David, como me sinto, parece que é tão fácil de te contar, de te dizer tudo. Mal te conheço e confio em ti como não confio com muitas pessoas.”
“Mas precisa de terapia. Não quero lhe dar alta sem ter a certeza que fica bem acompanhada.”
“Eu me responsabilizo. A Catarina vai estar na terapia. E vai sim, mesmo negando vai.” – ele viu que eu abanava a cabeça que não constantemente.
“Ok. Amanha deve ter alta, se continuar a recuperar bem. E se não tiver mais nenhuma crise até lá. Só lhe posso dar alta quando tiver a certeza que fica bem.”
“Obrigada, doutor.” – e o médico saiu da sala.
“Não quero um psiquiatra, não sou maluca, não quero terapia, não há nada para contar. Não quero ficar medicada, só quero ficar sozinha, que me deixem em paz.”
“Catarina…”
“Não David. Não quero a tua pena, não sou nenhuma coitadinha.” – senti as lágrimas a escorrer.
“Não tenho pena. Eu sei que você não é, e eu não estou agindo como se fosse e você sabe Catarina. Só quero ajudar. Quero ver a Catarina que era.”
“Talvez nunca a vejas. Já eu nem sei que Catarina era essa.”
“Pode não saber, mas se eu estiver ajudando talvez ela volte.”
“Duvido. Não te quero chatear, não mereço tanta atenção, eu só vou ser uma distracção e vou fazer lembrar-te do que aconteceu e nunca vais ficar bem.”
“Deus me pôs no seu caminho. Não a vou deixar. Você merece sim, não me está distraindo eu decidi ajudar você. Mesmo me afastando eu vou voltar sempre, se isto está acontecendo foi porque Deus assim quis.” – e senti lágrimas na minha cara e a mão dele na minha.
“Não te posso prometer nada, não te posso prometer que vou ficar bem e que isto não vai voltar a acontecer. Eu queria afastar-te para não te magoar, para não te ver a sofrer, mas se Deus fez com que nos encontremos não vou lutar contra isso, vou lutar para não te fazer sofrer, nem as outras pessoas que se preocupem comigo.”