terça-feira, 24 de agosto de 2010

Rescue Me - Capitulo 3


Aviso: Este capitulo fala de assuntos susceptiveis, nao me responsabilizo pelo que possam sentir ao ler.

A verdade é que o telefonema não me saia da cabeça até nem me apercebi que o Benfica tinha marcado o 3º golo do jogo, só reparei depois ao ver toda a gente a festejar, e de ver os jogadores a abraçarem-se. Sabia que o resultado estava praticamente definido, ainda havia muito da 2ª parte para se jogar, mas o Benfica estava a gerir bem o jogo e com 2 golos de diferença ainda ia ser mais fácil.

“Não tiras os olhos dele. Estás mesmo apanhada.”

“Não estou nada mãe! Para com isso, apenas o gosto de o ver jogar.”

“Ok, eu paro. Não amues, baba-te à vontade.”

Nem respondi, não queria enervar-me o suficiente e contar do telefonema. A verdade é que não parava de pensar no telefonema e comecei a sentir-me mal, a sentir uma dor inexplicável, uma dor que me consumia de dentro para fora, tinha de a fazer parar, e só pensava numa coisa, em magoar-me, sabia que isso ia fazer desaparecer a dor. Não devia faltar muito para o jogo acabar e quase que não controlava o que sentia, as lágrimas queriam sair e fiz um esforço imenso para não chorar ali. Agarrei na minha mala e retirei uma pequena lâmina que lá tinha, ela estava na mala escondida, apesar de nunca a ter usado tinha a posto lá sabendo que a ia usar mais cedo ou mais tarde. Apercebi-me que só magoando talvez não fosse suficiente para parar com a dor, tinha de tomar uma medida mais drástica, eu queria que a dor desaparecesse completamente, queria ser livre e não sofrer mais. Escondi a lâmina no bolso das calças, olhei para a minha mãe.

“Vou a casa de banho.”

Cada passo que dava pesava mais, mas tinha tomado a minha decisão, não aguentava mais. Entrei na casa de banho deserta, toda a gente estava a ver o fim do jogo, ouvia os cânticos, as buzinas e os gritos, retirei a lâmina e encostei-a ao pulso. Senti as lágrimas a escorrer pela minha cara mas não me lembro quando comecei a chorar. Pressionei a lâmina com mais força e fiz um pequeno corte, vi o sangue de cor vermelho como o estádio, como o mar de adeptos e fez me sentir um pouco melhor mas a dor continuava e não diminuía.

Agarrei na lâmina com mais força e cortei, senti-me mais livre, senti a dor desaparecer aos poucos, fiz o mesmo ao outro pulso e era uma sensação libertadora, saber que ia ficar livre de toda a dor, e que ia deixar de ver tudo, de sentir tudo, de sonhar com tudo. Vi o sangue a escorrer mas não me importei, não sentia dor nenhuma, baixei as mangas da camisola e sai da casa de banho, as lágrimas tinham secado e a dor estava a desaparecer.

As pessoas estavam a sair do estádio, o jogo deve ter acabado ou está perto disso, dirigi-me ao meu lugar e vi a minha mãe lá, mas não a minha irmã, passei pela minha mãe olhei para ela.

“A Filipa está perto do relvado para ver se consegue a camisola, vai lá ter com ela.”

“Ok. Desculpa.”

A minha mãe não ligou ao meu pedido de desculpas, deve ter pensado que estava a pedir desculpa de ter demorado na casa de banho, mas estava a pedir porque a minha vida ia terminar ali.

“Catarina! O David Luiz vem aí! Despacha-te!”- ouvi a minha irmã gritar e vi-a no meio da pequena multidão que se tinha formado ali.

Aproximei-me e fiquei lado a lado dela, mesmo à frente, passando pelas pessoas, comecei a sentir me tonta mas não liguei, senti a perder as forças lentamente, mas ignorei, sentia-me cada vez mais livre e sem dor. Vi-o cada vez mais próximo, ele tirou a camisola ficando de tronco nu e estava a ver a quem a ia dar. Estiquei o braço e fiquei ainda mais tonta, ele estava perto de mim, praticamente à minha frente. Tinha os meus olhos presos nele, queria que a cara dele fosse a ultima coisa que a minha mente registasse antes de me apagar e desaparecer.

“Catarina!” – a minha irmã gritou.

Olhei para ela e vi o motivo. A minha camisola estava ensanguentada, já não era bem verde, e o corte no meu pulso era bem visível. Ouvi as pessoas em choque, sentia cada vez mais tonta e já não via bem as coisas, até os sons começaram a ficar distorcidos. Senti algo a agarrar-me no pulso, com força e consegui ver que era uma mão. Olhei para ver de quem era a mão e vi que era ele, olhei nos olhos dele e vi desespero, dor, tristeza, naquele momento o olhar dele fez-me lutar, fez-me pedir ajuda, fez-me querer viver por um instante, mas comecei a perder as forças, os meus olhos começaram a fechar e deixei de ver, mas ainda ouvi o que parecia ser a voz dele.

“Ajudem! Não morra, não pode morrer, por favor Deus a salva.” – e foi a ultima coisa que ouvi.

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