Já não me sinto leve nem livre. O que se passa? Que luz é esta? Devo estar no céu. Vejo paredes brancas e tecto branco, deve ser mesmo o céu, ou algo, não sei se mereço ir para o céu, afinal matei-me.
Olhei bem para o que me rodeava e vi que afinal não morri, estou num hospital. Olhei para os meus pulsos e vi-os com tubos e ligados, comecei a chorar imediatamente, devia ter morrido, estou viva e devo ficar com umas cicatrizes horríveis para sempre e a dor vai continuar, não quero enfrentar a minha família, desapontei toda a gente ao fazer isto.
“Já vi que já acordou. Está bem? Dói-lhe algo?” – perguntou-me uma enfermeira.
“Estou! E não me dói nada, só quero ficar sozinha.”
“Já que está acordada queria dizer lhe que tem uma visita.”
“Se é a minha família diga que ainda não acordei, não quero vê-las.”
“Não é a sua família, é um jovem, alto e muito engraçado.”
“Não estou a ver quem possa ser. Apenas deixe-me sozinha.” – a enfermeira saiu.
Tentei limpar as lágrimas e senti dor nos meus pulsos. Fiz um esforço para não gritar ou voltar a chorar. Olhei para a janela e o dia até estava bom, sentia dor, não a dos meus pulsos sentia a dor que me fez fazer isto, e agora sabia que esta dor não ia desaparecer, apenas ia piorar com o que fiz.
Ouvi passos e virei-me, olhei para a porta e vi quem tinha acabado de entrar. A última pessoa que vi, a ultima voz que ouvi. À minha frente estava o David Luiz, a ultima pessoa que esperava ver.
“Como está? Como se sente?”
“Bem, não quero ser mal-educada mas não estou com cabeça para falar.”
“Mas você não me parece bem. Parece estar com dores.”
“Mas estou bem, não te preocupes.”
“Não está, e enquanto não estiver bem vou estar sempre preocupado.”
“Eu não mereço que te preocupes comigo, David Luiz.”
“Merece. Eu vim aqui não só para saber como está Catarina, mas porque tenho algo para lhe dar. Tentei dar à sua família mas disseram para lhe dar em pessoa.”
Ele tirou de dentro de um saco a camisola dele. Pensei logo que ele me a estava a dar por pena ou algo assim, mas aceitei a camisola, assim talvez pudesse ficar sozinha mais depressa.
“Eu ia lhe dar a camisola, eu reparei que estava vestida de verde, e ia lhe dar quando vi o seu pulso e peguei nele, tentei fazer algo para parar de sangrar. E esqueci a camisola.”
“Não merecia nada disso. Eu devia ter morrido, não valho nada. Estou farta de não sentir nada, toda a gente me abandonou, até Deus, pedi ajuda, pedi força e nada, se Ele se preocupasse tinha evitado que fizesse isto.”
“Não fale assim. Vale algo sim Catarina, é alguém. Deus não a abandonou, se o fizesse não voltaria para a bancada, ficaria na casa de banho a morrer, mas ao voltar teve uma oportunidade de ser salva.”
Naquele momento o que o David Luiz me disse fez todo o sentido, talvez não era suposto eu morrer, talvez eu tinha de fazer isto para ser salva, e ele foi o meu herói, o meu salvador, o meu anjo.
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